PodCarro Testa: BYD Dolphin Mini
Tudo que o Gurgel Itaipu queria ser

Desde que comecei no jornalismo automotivo profissional, meu jeito de ver (e testar) carros mudou bastante. A oportunidade de conhecer novos modelos sempre me encheu os olhos, e me fez ficar menos crítico daquilo que não conheço. Se um novo carro aparece, a resposta é sempre a mesma: “tenho que dirigir para ver qual é”.
Contudo, nem sempre dá para ter acesso a eles, então qualquer oportunidade tem de ser abraçada. E uma dessas “coceiras automotivas” era justamente os modelos da BYD, em especial seu mais fresquinho lançamento: o Dolphin Mini. Mais uma vez, ajudou o acaso, e assim nasce essa crônica.
Lançado literalmente ontem (28/02), o subcompacto elétrico chinês prometia muito, e entregou cinco dígitos aos que esperavam quatro no preço. Entretanto, ainda me chamava a atenção por conta de dois fatores: a propaganda MASSIVA feita pela empresa e mídia especializada, como um dos maiores lançamentos da indústria nesse semestre; e a promessa de revolucionar o mercado nacional. Mas uma coisa de cada vez.
Notarás, quer queira, quer não

Pequeno, com 75 cv de força e torque de dar inveja a muito Gol CLi 1.6, o Dolphin Mini promete triunfar no mercado dos modelos de entrada do Brasil, hoje dominado por carros a combustão que ninguém se sente muito inclinado a comprar. Com um porém: totalmente elétrico, e prometendo mais economia. Se o visual moderno, a interna futurista, ou mesmo a central multimídia giratória não te convencessem, a TV o faria.
Ações de marketing massivas, com direito a menções em comerciais, novelas e até mesmo em programas de auditório no horário nobre de domingo, você não escaparia dele nem se quisesse. Mesmo sem um tostão furado para o financiamento, não dormiria sem saber qual a última novidade da BYD.
O acaso vai me proteger…

Avancemos para hoje, 24h depois do anúncio do preço. Com mais de 7 mil reservas feitas e reviews que falam bem ou mal, a coceira me incomodava. Queria uma oportunidade de andar no carro mais comentado do momento, a fim de tecer minhas próprias opiniões, e não confiar apenas nas de terceiros mil. E como dito antes, a sorte ajudou.
Indo ao shopping comer alguma coisa depois de um longo dia de trabalho, literalmente vejo uma unidade, na cor preta, passar na minha frente. Era um carro de test-drive, e resolvi arriscar uma tentativa. O vendedor foi com a minha cara, me deixou conhecer uma unidade branca em exposição no saguão, e em 15 minutos já estava no carro. Era hora de avaliar o pequeno notável.
Por incrível que pareça, o visual me agrada. Gosto de carros pequenos, por serem ágeis, e gosto mais ainda quando parecem ser mais do que realmente são. Resumidamente, hot hatches são assim. Mas de volta ao Dolphin pequenino. Já acomodado, noto que os ajustes do banco são elétricos, e a posição de guiar é um pouco elevada, algo que me lembra o VW Up.
Ligado, não se percebe nada. Na sua frente, uma telinha digital diminuta exibe informações que você não daria a mínima, salvo por três funções: velocímetro, nível de bateria e um dos três modos de condução. Já andando, em baixa velocidade, a direção elétrica é leve, e manobrar é bem fácil.
Vendendo o peixe ao pescador
Como dito antes, o vendedor, mesmo sabendo que não contaria comigo na sua próxima venda, foi gentil e me cedeu umas voltas no amplo estacionamento, a fim de conhecer o pequeno elétrico.
Alguns metros à frente, digo a ele que o curtíssimo diâmetro de giro me lembra as antigas Asia Towner, que dominaram o País nos anos 90. Por sorte, ele é filho do único mecânico especializado em Towner no bairro, o que permitiu uma maior abertura, e mais tempo ao volante.

Convencido de que eu não era mais um leigo ao volante, me deixou acelerar o subcompacto com tudo. Piso no acelerador, e após um segundo de delay, o hatchzinho despeja os quase 14 quilos de torque no chão, e te lança à frente. Nada arrebatador, mas interessante aos que gostam de sair do sinal na frente dos outros, por exemplo.
Nisso, destaco um ponto positivo do carro: a saída de curva. Ok, é um modelo urbano, mas é interessante ter todo o torque no meio para o final da trajetória de curva, garantindo uma saída firme da manobra. Há pouca rolagem da carroceria, e contornar obstáculos é fácil. É divertido? Sim, mas isso não é lá muito importante para o consumidor comum. Porém, essa é uma crônica, e uma avaliação mais séria pode ser vista em outros lugares.
O conversor de pagãos

Já no final do teste, avalio o baixo ruído do carro, vendo que ele é amigável em pisos ruins, mas não um SUV do dobro do valor. Lembre-se, mesmo elétrico, ainda é um carro de entrada.
Aí chega a surpresa. O vendedor me confidencia que trocará seu carro de uso diário por um Dolphin Mini, por conta dos benefícios ao bolso. Intrigado, pergunto-lhe que carro usa no dia a dia, e caio para trás: um Renault Sandero R.S. Seu 2.0 de 150 cv é o sonho de qualquer entusiasta moderno, e mesmo chocado, ouço atentamente às justificativas.
Tendo recém-mudado para uma nova casa, via no novo modelo da BYD uma alternativa ao gastão RenaultSport, o que entendo perfeitamente. Vindo de alguém que já tivera nomes notáveis como Civic Si e Xsara VTS em mãos, colocar as mãos em algo novo, mas sensato, me fazia sentido, mas eu não faria. Burrice minha? Talvez, mas gosto não se discute.
Conclusão
Me despedi do vendedor e do carro, convicto que o BYD Dolphin Mini pode, sim, modificar o mercado. A montadora chinesa, que acabou de iniciar sua fábrica no Brasil, já é a 10ª mais vendida do mercado, e pode ir mais longe. Um carro barato (até a página 2) e econômico é uma boa resposta.
Vemos um novo anseio da classe média pela novidade, antes restrita aos ricos: o carro eletrificado, seja híbrido ou elétrico. Assim como o Monza/Santana nos anos 80, e os SUVs nos anos 90/2000, os híbridos e elétricos tem seus pecados, mas encantam pela novidade e benefícios.
Entendo quem queira fincar os pés nos chão e negar o novo, e que elétricos começam a desacelerar nos mercados americano e europeu, mas uma coisa é certa: a mudança de perspectiva do mercado nacional será a galope, e começa em modelos como o pequeno notável da BYD.



