PodCarro Testa: Chevrolet Chevette SL 90'
Cada um tem a Alfa Romeo que merece
Domingo de sol, carne e conversa fiada levam a esse tipo de coisa: test-drives inesperados. Ao prestar uma visita ao bom amigo Enio Gonçalves, no vai e vem da conversa sobre possíveis novos carros para sua garagem, e de preferência algo que pudesse servir de uso diário, ouço seu pai falar sobre seu Chevette 90.
Muito animado e saudoso da época de mais novo, em que teve outros Chevettes, e embalado pelo filho que tivera um Turbo anos atrás, recebo o convite para dirigir o carro que você viu na capa. Depois de anos a fio ouvindo muita coisa sobre Chevette, a maioria delas à contragosto, seria uma boa oportunidade de ver na prática se o hype internético é realmente válido, ou se atrás do teclado vocês são apenas emocionados demais.
Mas antes disso, um pouco de contexto.
A propaganda e a militância
Já não bastando o Enio muito chorar pitangas pelo seu Chevette Turbo de outrora, e pela internet repleta de chevetteiros à torto e a direito, até na minha família o pequeno Chevrolet tem sua legião de fãs, e um deles é minha própria mãe.

Seu primeiro carro, um Chevette SL 78 coral, foi um marco na vida dela, e era, segundo as palavras dela, “muito gostoso de guiar, nada difícil de estacionar, e muito ágil na cidade”. Meu pai, na época seu namorado, confirma a história. Apesar de podre e com motor precisando de muitos cuidados, foi reformado e amado até o fim, em 90, quando foi dessa para uma melhor.
Ainda hoje ela fala com certa saudade daquele carro, e sua opinião muito me importa, pois de mãe não se pode duvidar jamais. Mesmo assim, sempre fui muito cético sobre o carro, e teria que ver para crer. Sempre me pareceu muito desproporcional a propaganda feita na internet sobre o carro, muito focada no conceito “imbatível” de ser barato e pronto para sair de lado, te transformando no próximo Drift King da sua rua. Se há comício há exagero, mas isso só vendo pra crer mesmo.
Impressões ao Volante
1 — Posição de Dirigir
Com o carro na rua, me posiciono no interior e de primeira percebo a diferença na posição de dirigir. Acostumado ao espaço do meu Gol 95 e do Monza 91, o estranhamento era certo, mas entendível. O volante naturalmente torto e deslocado à esquerda, era estranho aos olhos, mas nada mais.
Os bancos recebem até bem o motorista, mas o peso da idade na espuma (ou falta dela) são cruéis aos mais gordos. Culpa do motorista e não do carro, sigo para o próximo defeito: a posição dos pedais.

Dono de modestos pés 44, achei a proximidade excessiva dos pedais um problema, pois constantemente tinha dificuldade em moderar o freio e o acelerador, mas isso é mais prática do que qualquer outra coisa. O pé direito volta e meia agarrava em alguma coisa, algo impossível de detectar no completo breu, e só agora vejo que era a coluna de direção.
Sem muito o que fazer além de evitar culpar o carro pela minha carroceria avantajada em tudo que é lugar, era hora de colocar o Chevette em movimento.
2 — Dirigibilidade e Desempenho

Já andando, percebo que os engates são fáceis e sempre à mão, algo pra lá de agradável. Mesmo com 32 anos nas costas, o câmbio é de uma precisão à lá Volkswagen, o que é muito bom, e quase te faz esquecer a posição esquisita de guiar. A posição da alavanca, acima e quase painel adentro, lembra muito as Alfa Romeo dos anos 60, o que pra mim é um baita dum elogio. Respeito máximo por isso.
O motor 1.6/S, que segundo o dono trabalha “meio frio”, não é nenhuma usina de força, mas é agradável em uso urbano. Ágil na saída de sinal e com desempenho satisfatório, te leva nos lugares numa boa. Porém, não é difícil entender quem queira (e faça) swap nesses carros, o carro merece mais potência pela dinâmica que oferece.
Como foi um trajeto curto, não pude aferir as curvas como gostaria, mas em baixa velocidade dá pra notar que não há muita rolagem de carroceria, e é um conjunto até bem confortável. O motor faz o possível para você não se decepcionar muito com a experiência, e uma vez que você aceita que os pedais não foram feitos pra você, o punta-tacco é bem fácil, e somado à precisão dos engates da caixa, bastante convidativo.
Embalado, o Chevette empolga. Uma vez que você se adapta ao ambiente, sente a necessidade de descobrir até onde o conjunto consegue ir, e nisso dou ponto ao fandom. Pequeno e esperto, o carro não desaponta naquilo que se propõe: ser um daily divertido e razoavelmente esperto, não te deixando muito na mão em termos de conforto.
3 — Veredito Final

É aqui que vocês decidem se vão me cancelar ou não. O Chevette é um carro muito honesto pro que foi feito: ser uma solução barata e eficiente para bater o sucesso do Fusca, algo que nunca conseguiu, porque o Fusca é brabo.
Não é nada difícil entender porque a galera ama esse carro, mas devo dizer que é realmente preciso amá-lo para passar por cima de seus defeitos crônicos. Claro que estamos falando de um carro de entrada, mas em matéria de ergonomia existem opções melhores, e se são mais divertidas ou não, depende do seu tipo de diversão.
Se o assunto é tração traseira, o Chevette é rei na sua categoria. Último dos moicanos em oferecer diversão na tração certa, é o tipo de projeto que dá saudade em quem já teve, e pode conquistar quem nunca teve. Talvez seja um bom primeiro carro pra você que gosta. Divertido na medida certa.
Teria? Acredito que não. Apesar de querer andar mais no carro para fazer um teste como se deve (com mais velocidade, situações de trânsito e estrada e a aclamada saída de traseira), vejo que o Chevette não é um carro pra mim. As soluções em dirigibilidade e dinâmica que ele oferece existem em outros modelos, que me receberiam (e tratariam) melhor.
Agradecimentos ao Enio e ao seu pai pelo empréstimo do carro.



