Avenida Europa
Avenida Europa

Avenida Europa
Nós vamos invadir sua praia
Antes que comecemos, eu preciso de um favor seu. Imagine-se morando numa cidade onde a cultura automotiva é devagar-quase-parando, para não dizer morta, pois de exageros já basta o mundo lá fora. Feito isso, pense no frenesi que seria você encontrar com algumas das figurinhas carimbadas que já cansou de esbarrar pelo Instagram, além de conhecer muita gente nova e na mesma frequência do que você curte: carro.
Parece incrível, não? E é mesmo. Para alguém vindo do Rio de Janeiro, e alheio ao que acontece na cultura além-mar dos “aceleros” na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca, estar em São Paulo é praticamente o paraíso sobre rodas. Em especial neste texto, a meca automotiva paulistana: a Avenida Europa.
Localizada em Pinheiros, ela corta uma parte nobre da cidade, cujo valor imobiliário poderia ser facilmente descrito como o local onde mora o Governador, e com a maior concentração de supercarros por metro cúbico. Mas isso é algo que você provavelmente já sabe, afinal, de internet e dúvidas estamos sempre munidos, então até aqui não há nada de surpreendente.
Porém, é na atmosfera do lugar em que as coisas realmente mudam, e pra valer.

Minha experiência se resume à um posto de gasolina no final de uma longa avenida, de duas faixas. Lá você encosta seu carro, moto, bicicleta ou mesmo um par de tênis, entra na conveniência pra tomar um refri e espera as pessoas passarem. E vou te contar, passa de tudo nessa rua, mas a regra para ser visto é uma só: passe RASGANDO TUDO, pois só assim você será notado.
Aos que tem pressa para estar em qualquer lugar menos ali, o esticar da segunda e terceira marchas, seguido pelo olhar de curiosos e suas câmeras, vale por um dia inteiro. Dizem os frequentadores mais assíduos que nos finais de semana, os postinhos da avenida brilham com presenças ilustres, mas isso eu aposto que você já sabe. Falemos do que realmente acontece com quem para ali.

“Que vibe indescritível, meo” — Boça Automotivo
Mentira, vamos aos fatos.
Conforme anoitece, os carros vão chegando ao posto, todos à sua maneira espalhafatosa e chamativa. Uns ganham no grito, seja pelos bodykits agressivos, asas enormes e rodas gringas caríssimas, outros com seus escapes dimensionados ou mesmo abertos, como quem anuncia as trombetas do apocalipse. Há também carros originais e alguns restos de rico, que de tão bem cuidados, parecem recém saídos do showroom.

E mesmo assim, todos se reúnem e ficam sentados conversando, na maior harmonia possível, nas cercanias do posto e suas esquinas. Chevette de drift? Tem. Saveiro G2 praticamente zero quilômetro? Sim. Ford Fusion com bodykit pique “DTM”? Pode apostar que sim. E de seus porta-malas saem cadeiras de praia, anunciando que seus donos realmente vieram pra ficar, o tempo que for preciso.
A baixa luz da rua, quase que propositalmente, faz brilhar o que quer que adentre o posto. Um festival de cores e projetos que te ganham nos detalhes, onde é impossível ser indiferente.

A análise
Nós, petrolheads/gearheads/fãs de carro/ou-seja-lá-que-nome sabemos que, assim como qualquer hobby que se preze, é difícil achar pessoas que gostam das mesmas coisas que nós, ao menos convenientemente perto de casa. Então presenciar assim de tão perto a cultura automotiva tão ao vivo e à cores é algo magnífico, porém não à prova de falhas.
“Ah pronto, lá vem o chato arrumar defeito no negócio. O que foi agora?”
Calma. Primeiro, isso é uma crônica, então é meio que necessário, afinal é um relato fiel da realidade. Segundo, por mais maravilhoso que o cenário seja, ele ainda é apenas a superfície do que é realmente a cultura automotiva. É uma vitrine de projetos prontos, escapamentos nervosos e um templo de imagens que não condizem muito bem com a minha realidade, e imagino eu, tampouco a sua.

Mas uma coisa é certa, a Av.Europa é um colírio para os olhos cansados de SUV’s compactos e Hondas CG 150 com “escape delete”. Você descobre que a comunidade existe e é extensa, assim como suas panelinhas também, mas isso é perfeitamente normal. O que fica é que esta é uma das praias do “autoentusiasta” paulistano, o que definitivamente não é o mesmo significado de praia para o carioca.
Mas agora é hora de ir. Ainda tenho muitos textos por fazer, pois o que não faltam são histórias para contar. Até muito em breve.




