No Girar da Chave — Monza Classic 91'

No Girar da Chave — Monza Classic 91'

Uma foto guarda mais histórias do que se imagina

No Girar da Chave — Monza Classic 91'

Uma foto guarda mais histórias do que se imagina

Olá. Esta é uma nova série de contos automotivos chamada “No Girar da Chave”, onde a intenção é te fazer embarcar no mundo por detrás das imagens, sensações e emoções do automóvel. Então, sempre que você vir esse título não espere uma crônica, pois de sério já basta o viver. Bom proveito.

Meu tio sempre foi uma pessoa distante da família. Só o via em algumas festas de família, e sempre de poucas palavras, mostrava o mínimo de preocupação com os que estavam ao seu redor. Das poucas vezes em que o visitei, o que me chamava a atenção em sua casa era um porta retrato, em cima da TV, com uma foto de um Monza levemente rebaixado.

Desde que me entendo por gente aquela foto estava ali, naquela estante, e todas as vezes que perguntava sobre ela ouvia a mesma resposta: “um dia eu te conto”. Já mais velho, e um pouco mais entrosado com ele, insisto mais uma vez na história da foto, e vencido pelo tempo e pela persistência, ele pede que me sente à mesa da cozinha, e avisa: “se seu pai não te contou sobre isso ainda, é porque ele é um trouxa mesmo”.

Aquele semblante sério, parado e visivelmente mais velho que meu pai, do nada era falante e animado, algo que eu jamais tinha visto antes. Com o retrato na mão, ele fazia uma profunda volta ao passado, num tempo onde nem eu e meus primos sequer existíamos: o início dos anos 90.

Antes mesmo que começasse a falar, foi aos fundos da casa e trouxe consigo uma caixa velha, toda remendada à fita, escrito “Kenwood”. Perguntei o porquê daquilo, afinal só havia perguntado sobre a foto do carro. “Calma rapaz, você não sabe da missa um terço. Tem todo um contexto”, afirmou.

“Isso aqui tem história”

Posta sob a mesa, a caixa era uma verdadeira cápsula do tempo. Algumas fotos em família, vários contracheques de uma antiga empresa de telefonia dos anos 80, já falida, e no meio daquilo tudo, fitas K7, de todos os tipos diferentes. No meio delas, ele escolhe uma e me pergunta: “você sabe o que é isso aqui?” Diante da negativa, e de certa forma contente pelo fato de poder me explicar o que era aquilo, ele pede que eu procure o conteúdo da fita “aí onde vocês escutam música no telefone”. Sem pestanejar, acho uma playlist com a mesma arte da fita, e a explicação começa.

“Esse DJ não me é estranho, mas dizer que já ouvi falar é cortar a onda do cara. Melhor deixar que ele explique.”

Logo na primeira faixa, e quebrando completamente o semblante sério que o caracterizava, ele imita alguns passos tímidos de dança. Diante do meu espanto, e de fazer alguns movimentos robóticos que mais pareciam um filme de comédia, ele justifica dizendo: “eu dancei muito essa nos bailes do Atlético Clube, você tinha que ver”.

Percebendo que havia se perdido completamente no momento, volta à mesa e finalmente emenda a história, enquanto a música segue tocando. Por ser o mais velho da família de meu pai, havia sido posto à trabalhar muito cedo, e com algumas indicações de amigos, havia conseguido emprego numa empresa estatal de telefonia, algo em grande crescimento na época. Com um bom salário, ajudara meus avós a terminar a casa deles, e havia dinheiro o suficiente para financiar um apartamento não muito longe dali, e finalmente realizar um sonho antigo: comprar um carro zero.

“Isso ai andava que era uma beleza, cê tinha que ver”

Uns recortes velhos dentro da caixa davam o tom que completavam a história do retrato sob a TV. “Quando saíram esses Monza dos novos, eu fiquei maluco. Chamavam de “Tubarão”, por causa da frente mais baixa, menos quadrada do que aquele 86 vermelho que seu avô tinha.”, explicou. Disse que assim que soube que haviam saído, correu e comprou um, à vista. Duas portas, azul marinho e com todos os opcionais, menos com rádio.

Isso certamente explicava a caixa, mas eu realmente não esperava que ele ainda tivesse guardado O RÁDIO.

Nem sequer um arranhão, impressionante

“Aí você pensa: um cara novo, com dinheiro no bolso, carro do ano e com um monte de rua vazia por aí, que antigamente não tinha tanta gente na rua que nem hoje, e fazia o quê? Fazia merda, claro”. Enquanto dizia isso, dava pra ver no semblante dele que não julgava errado fazer isso e tampouco se arrependia. “Era dar sábado à tarde e todo mundo ia lá pra Av.Principal ficar assistindo os caras darem cavalo de pau, fazer manobra. Tinha de tudo, Opala, Fusca, Chevette… a única certeza é que você ia pra lá pra zoar, e só”.

Mal sabia ele que eu já conhecia a cultura dos rachas, mas não sabia que um daqueles malucos era meu próprio tio.

Mas nisso logo me veio a pergunta, se ele também fazia parte da galera das manobras. “Não, só uma vez ou outra, pra acompanhar uns amigos. Meu negócio era outro. A diversão pra mim era chegar nos bailes de sexta à noite.”

Àquela altura eu meio que já havia entendido que aquela pose de sério era vinda de alguma coisa que o mudou completamente, da água pro vinho. Mas como não apressa nenhuma boa história, o jeito era continuar ouvindo.

“Sexta à noite era o dia que fazia a semana inteira valer à pena. Me arrumava todo e ia curtir os bailes com os amigos. A sensação era o Monza parado na porta do Atlético, com som alto e aquela luz laranja do poste refletindo nele. Era chegar acelerando e ver os outros com raiva acelerando junto, porque você NÃO PODIA passar na frente do baile sem ninguém te ver, nunca. Rapaz, que época”, disse, como quem recontava algo que tinha acontecido anteontem. “Agora essa tu não sabe: foi num desses bailes que eu conheci minha primeira esposa, sabia?”

O que me surpreende é ele ter conhecido alguém num rolé que sempre acabava em porrada.

Assim que outra faixa tocou no celular, ele se adiantou a contar sobre o carro. Depois de conhecer a futura esposa, casar e esperar pela chegada do meu primo, o Monza era seu daily, e foi o xodó da família por muitos anos, até o divórcio do casal, em 98.

Numa maré baixa, o carro voltou a receber atenção total. Rodas TSW,uma baixada considerável na suspensão e um som ainda mais potente que o antigo eram o remédio para a tristeza, ao que ele fez parecer enquanto falava, agora com um tom mais pesado, mas ainda tentando disfarçar com uma falsa animação sobre o carro. Seus amigos, que antes eram figurinhas carimbadas nos rolés e nos bailes com seus Passats e Chevettes, hoje já eram casados e com filhos, então a animação para manter o carro aos poucos ia sumindo. Nessa nova fase, conheceu sua segunda esposa, com quem é casado até hoje, e pessoa essa que até hoje não sei bem se devo chamar de tia. Pelo menos ela é legal.

“Lá pra 2002 eu vendi ele. A empresa tinha falido e eu precisava de dinheiro. Se não fosse por isso eu jamais tinha vendido, amava demais aquele carro. Era como um amigo pra mim, sabe?”

Concordei e perguntei se ele teve algum carro depois desse que o fizera tão feliz. “Tive alguns, mas aquele Monza era especial. Se eu pudesse voltar no tempo, tinha aproveitado mais. Compra um pra você um dia, você vai adorar”. Aquela figura sisuda e séria havia sumido pra sempre, e enquanto ele colocava sua caixa de memórias de volta no lugar, ficou evidente que ele só apegado às próprias lembranças. E quem não é, não é mesmo?

Aquela foto em cima da TV certamente tinha mais história do que eu imaginava, e fiz bem em insistir naquilo. Já se vão 3 meses desde esse dia e todo domingo à tarde que tenho livre, eu ainda passo na casa dele pra ouvir aquelas fitas antigas. Quem sabe ele não me descola aquele rádio também? hehe.

E talvez, apenas talvez, não seja má ideia olhar um Monza Classic 1991 nos classificados.

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