Novo Velho Amigo

Novo Velho Amigo

Esqueça tudo que você sabe

Novo Velho Amigo

Esqueça tudo que você sabe

“Foi você que meteu caraminholas na cabeça desse menino com carro, agora aguenta!” — Minha Mãe, jogando no meu Pai a responsabilidade de me aturar reclamando sobre pequenos defeitos do Gol.


Ter um carro é um tormento, não se engane. Quando novo, o excesso de zelo vai te guiando para mantê-lo o mais perfeitinho possível, longe de portadas e arranhões no mercado e da vaguinha minúscula do seu prédio.

Meu carro passa longe de ser novo, pois viveu 23 anos de sua vida subindo e descendo a serra de Petrópolis, no Rio de Janeiro (um martírio para carros populares), quase que semanalmente. Então era um perfeito exemplo do velho ditado “por fora bela viola, por dentro pão bolorento". Mas como você já está careca de saber, encarei a iguaria sem pensar muito, e não me arrependo.

Depois da pandemia começar e não haver mais muitas razões para rasgar a noite voltando pra casa vindo da faculdade, o carro foi ficando cada vez mais na garagem, e aquilo me agoniava. Não era justo sair de duas décadas de uso diário sem dó e mantido na base das (muitas) gambiarras para ficar ali num canto formando teias de aranha.

Toda pequena saída era especial, uma forma de manter todos os fluidos no lugar, e um pouco de paz na minha cabeça. Todo bicho enfurnado em casa precisa andar um pouco que seja.

“He’s bought a old dog for a car, isn’t it?”- Jeremy Clarkson alguma vez

E numa dessas saídas, meu câmbio quebrou. Antes mesmo que eu me debulhasse em lágrimas e tocasse “My Way” de Frank Sinatra bem alto, a ficha já havia caído. Não havia o que fazer senão reconstruí-lo pra poder andar de novo, e vários cruzados novos depois, ele voltou novo mesmo. Grafos novos, engrenagens refeitas e óleo novo (essa é especial pra você, Sr. Feldman) deram uma vida nova ao velho hatch, algo que eu sinceramente não esperava.

Não importa se é pouca coisa, essa imagem sempre me deixa com o coração na mão — (Arquivo Pessoal)

Contra todas as maldades do mundo, é um câmbio praticamente novo. Engates durinhos, justos como nunca havia visto, e que ao meu pai lembram o Gol 97 que minha mãe teve no passado (e eu destruí parcialmente aos 6 anos). A ré ainda arranha um pouco, mas eu decidi aceitar que isso é mais característico do carro do que qualquer outra coisa, talvez pelo bem da minha saúde mental.

Monoproblemático

Claro, mesmo com esse problema do câmbio fora do caminho, ainda restava o pior deles: a injeção eletrônica. Por ser um carro de apenas 1 bico injetor de gasolina, a resposta dele não é tão rápida quanto um outro Multiponto (com 4 bicos), mas desde sempre ele tinha o mesmo engasgar de sempre quando frio.

Uns dizem que é sonda lambda, problema comum nos Gol CHT, outros dizem que é o coração da injeção em si, a famosa “centralina”. Tudo que eu sei é que pra um carro cujo modelo e motor+injeção só ficou em linha por 2 anos e num período pré-fóruns de internet, conseguir qualquer informação sobre ele é um pé no saco.

Recentemente mandei aumentar a pressão da bomba e trocar as mangueiras e alimentações da TBI (corpo de borboleta, que comanda a entrada de ar/combustível no motor), além de limpá-la. O carro não nega fogo quando frio, mas ainda faz seu show de recusar a dar potência em algumas situações, o que ainda é um duplex de frente pro mar alugado na minha cabeça.

O motivo pelo qual você está aqui

Mesmo com a solução destes pequenos problemas, o Gol ainda é cheio de defeitinhos. Vidros lanhados por pedras dentro das calhas, suspensão que precisa de lubrificação à cada semestre para não parecer uma porta da biblioteca de Alexandria e elétrica maluca (porém não Fiat (desculpe por isso, Mauricio Campelo)) ainda me tiram o sono. Pequeninas coisas que se revolvem com o tempo, é fato.

Eu só vou descansar quando você voltar a funcionar. — (Arquivo Pessoal)

A questão é que esses pequenos reparos mudaram minha forma de andar no carro, e tenho que dizer que pra melhor, afinal não há do que reclamar. O câmbio está um pouco justo, mas é do jeito que deveria estar desde sempre, e só do carro não se recusar a dar ré ou prender o acelerador ao andar frio, é uma senhora vitória, e olha que nem mencionei o remover do “catalisador”, em prol de um cano reto. É como se eu tivesse que reaprender o que é normal, o que considero seguro, e porque não, divertido.

É uma das coisas que eu tenho passar com o PodCarro e alguns desses textos: carro é um tormento SIM, mas é um aprendizado eterno. Nada será como antes a partir do momento que você bater a chave na ignição e sair por aí, pois absolutamente tudo pode mudar, o negócio é estar preparado.

E sobre estar preparado, você nunca vai estar. Nem sequer tente.

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