Super Luxo/Especial, Parte I

Super Luxo/Especial, Parte I

O Santana Reverso

Super Luxo/Especial, Parte I

O Santana Reverso

Domingo, 4 de julho de 2021. Por alguma razão que eu não me recordo estava novamente na seara automotiva (e purgatório profissional) do entusiasta, a OLX, à passeio, como sempre. Depois de várias semanas procurando carros que pudessem ser minimamente interessantes e inteiros, me via rodeado de uma maré infinita de Fuscas feios e e completamente deploráveis.

O orçamento não era altíssimo, então o que quer que aparecesse teria que ser bom, bonito e barato. O triste de gostar de carro é que não é qualquer coisa que vai te agradar de cara, e há quem diga que ter um filtro ou mesmo um crivo pra selecionar carros é uma coisa boa, mas pra mim é um tanto torturante. Avalia dali, negocia de lá, e o resultado é sempre o mesmo: um carro perfeito por fora e terrível por dentro, um anunciante com o mesmo ânimo em te atender do que um operador de caixa em final de expediente ou mesmo negociações estranhas com todo tipo de proposta indecente. Quem quer um carro antigo e não tem muito pra gastar VAI passar por esse inferno, pode acreditar.

Mas o Mundo gira, o Corsa capota e nenhum dia é como o outro, nunca. No meio daquela noite de domingo, depois de ter desistido completamente de procurar carros, um Monza 92 bateu na minha tela. Meu pai, que nunca tem muito interesse em nada que eu lhe mostro, parecia uma criança em frente a uma loja de doces. A farta lista de opcionais descritos pareciam inacreditáveis e o preço então, imbatível. Sem muita conversa, ligação feita e visita agendada.

Essa cena tem data e lugar na minha cabeça: minha infância

No dia seguinte, e antes que eu desse por mim, meu carro já estava ligado, lavado e com meu pai parado ao lado, num claro sinal de “vamos de uma vez”, em toda a sua neura de sempre chegar cedo em qualquer lugar que seja. Minha mãe, sempre no tempo dela, dava o tom da viagem: paciência e o máximo de atenção, afinal estava em território estrangeiro, o meu próprio carro, que ela não morre de amores, por não ter nenhuma amenidade que a agrade.

Chegando lá, uma grata surpresa: o rapaz que me venderia o carro era um ouvinte do PodCarro, e me reconheceu logo de cara. São coisas como estas que nos fazem pensar em como o mundo é realmente uma ervilha cortada ao meio, mas voltamos ao Monza.

Num cantinho da garagem o SL/E, fazendo companhia à um Fiat Duna (!) e à poeira.

Numa garagem nos fundos do prédio, lá estava o carro. Uma fina camada de poeira envolviam 30 anos de aço e gasolina, que apesar da carroceria de duas portas e visualmente enxuto comparado à concorrência, estava longe de ser um carro pequeno. Um olhar atento ao carro logo achou uns 5 defeitos diferentes na lataria, faróis, painéis e absolutamente nada disso iria me impedir de levar este carro pra casa. E é aí que você, caro leitor e leitora, deve ter cuidado.

Não era minha primeira compra na vida, e os perrengues do Gol haviam me ensinado que a emoção só deve funcionar depois da compra, então pus a euforia de lado e cataloguei mentalmente cada pênalti do carro que aparecesse pela frente. Ao ouvir meu pai ligar o carro, ainda que por pouco tempo, consegui identificar a lenta do motor acelerada, e um certo alívio de não achar nenhum barulho casado a isso. Mas isso é pouca coisa comparado ao que o carro tinha a oferecer, isso é fato.

A carroceria, apesar de seus defeitinhos de uso, não era ruim. Totalmente tratada à “Zibarth”, uma espécie de “batida de pedra” que repele ferrugem, era intacta e selada, fazendo valer seu investimento depois de 30 anos. Mais importante ainda depois de ouvir dos donos que era um carro que passara boa parte da sua vida morando em Ipanema, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Se alguém me dissesse que se tratava de um carro de região litorânea antes de comprar, talvez chegasse com uma espátula em mãos, afim de caçar todos os pontos podres. Logo depois descobriria que o Monza fora faturado em Belém do Pará, e veio rodando morar no Rio, e chegou a portar duas placas amarelas. Tudo documentado em anos de “verdinhos”, chave reserva e do manual do proprietário, ainda preservado na capa original da concessionária.

Não é poeira, é Zibarth, meu novo (e pesado) melhor amigo, de hoje em diante.

A Interna

Ao abrir a porta, o volante e o painel, ainda intactos depois de 93 mil km, me animaram depois dos pontinhos surrados da pintura do carro. O interior preto e cinza, amplamente repetido como “Renoir/Van Gogh”, é dum veludo macio, não muito denso, e que se estende até o teto (!), na cor preta mais densa o possível. Não deu muito tempo de reparar que os autofalantes das portas estavam soltos e caindo, mas não havia mais o que fazer, eu e meu pai já estávamos apaixonados.

A escuridão da garagem não faz jus ao quão bonito é esse interior.

E a parte mais marcante de um carro antigo por dentro: o cheiro. Definir o que era aquele almíscar estranho de sabonete senador e outros 5 donos seria difícil, então só perguntando a quem já andou para dizer.

Ela bem que tentou, mas ninguém sabe dizer que raio de cheiro é esse. Valeu a tentativa, Beatriz.

O adeus e o recomeço

Conversa vai e vem, e um assunto aportou bem no meio da negociação daquele barco Cinza Québec perolizado: o motivo da venda. Segundo o rapaz que me vendera o carro, ele tinha o desejo de aquele fosse seu carro de uso pessoal, mas que no alto de seus 17 anos e total inexistência de CNH em mãos, isso ainda não era uma realidade possível. Depois de se esquivar de um homem que havia visto o carro horas antes de mim, que disse que poria GNV no carro para trabalho, ele parecia um tanto aliviado de vender o carro a alguém que certamente daria um bom destino ao carro.

E aqui vai um pequeno recorte pessoal, nesta já pessoalíssima crônica: se não fosse meu trabalho no PodCarro e seus programas semanais, e a comunidade automotiva do Twitter, esse rapaz não teria conhecido minhas neuras motorizadas e certamente eu seria apenas mais um comprador em potencial qualquer. Foi legal ver as ideias que eu prego, sejam dentro da cena automotiva ou não, valendo pra alguma coisa, ainda que nesse caso para benefício próprio.

O desfecho dessa história não poderia ser melhor: valores acertados, os devidos adeus dados e a promessa de manter o Monza em boas mãos davam um clima de paz àquele momento, que pra mim eram só alegria. Peças antigas, lanternas antigas rachadas e até um parasol antigo de uma empresa telefônica falida iam junto com o carro, envoltas no vistoso carpete preto do generoso porta-malas.

Se um injetado dos anos 90 já dá problema o suficiente, dois realmente não são a solução.

É claro que seria muito injusto não contar tudo sobre a chegada do carro, mas eu estou muito cansado e ainda há muito o que se dizer sobre ele, afinal nenhuma lasanha que se preze chega sem fazer presença, mas esses fatos e as primeiras impressões ao volante ficam para o próximo texto. E sim, haverá um episódio do PodCarro dedicado a este carro, então siga o programa nas redes sociais (@podcarro) para não perder nenhuma chamada.

Até lá, escute PodCarro. Talvez eu bata no seu portão querendo comprar o seu carro, quem sabe.

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