Outros 1200
Outros 1200

Outros 1200
Do lixo ao luxo, no tempo suficiente
De todas as verdades sobre o carro antigo, uma delas sempre vai e volta na minha cabeça: “se você continuar mexendo, vai arranjar mais problema”. Em meados de 2020, diante daquele caos pandêmico, meu motor decidiu pedir as contas e ir pro saco. No mecânico, uma série de vídeos enviados por ele antecipavam o que já não era mais adiável: o motor teria que ser aberto e refeito.
Ele achou óleo em lugares que definitivamente não deveriam nem sequer ver o tal produto, e não havia muito o que fazer, o pacato e modorrento CHT seria feito do zero. Sendo meu carro de uso diário, restaurar a configuração original do motor seria ideal, pois teria mais alguns anos de durabilidade e economia pela frente, até que pudesse ter algo mais potente, mas eu não me dava por satisfeito em voltar a ter os mesmos 49cv de sempre. Nada contra à dinâmica que por muitas vezes me entreteve, mas não aguentava mais o bater das válvulas, tuchos e o diabo à quatro. Algo precisava ser feito à respeito.
Encurtando a história, um Kit de Repotenciamento para motores Ford CHT AE1000 achado em um recorte de revista perdido na internet era a solução para o velho carrinho. Pistões, anéis e camisas redimensionados dariam conta de dar mais fôlego ao hatch, com o benefício de não precisar mexer à fundo na injeção eletrônica, que por si só já era problemática o bastante. Calçado em dimensões próximas às 1250 cilindradas, o conjunto de peças da Metal Leve era um baita achado, em vista que quase não existem informações na internet sobre esse salvador da pátria, consideravelmente raro.
Plainado o cabeçote e com a boa saúde de bielas e virabrequim constatadas pela própria retífica (para relativo alívio do meu bolso), o “super kit” foi unido ao cansado bloco “gambiarresco” dos tempos da Autolatina, e com isso uma nova vida começou a surgir naquele carro.

Feito o transplante das peças novas e completados os devidos fluídos, nem mesmo o fato do mecânico ter batido meu carro dentro da oficina (que ele mesmo pagou pelos reparos) poderia me tirar da ansiedade de testar a máquina pela primeira vez. Mais de um mês sem o carro tinham me colocado em uma abstinência automotiva que não sentia desde os tempos de viajar apertado num ônibus intermunicipal, sonhando com um automóvel para chamar de meu.
Mil quilômetros “no sapatinho”
Com a retífica feita, a vontade era de sair da oficina lixando o que quer que me restasse de pneus, mas era preciso usar o carro por mil quilômetros de maneira civilizada, a fim de que os componentes internos se assentassem e criassem suas posições ideais e folgas naturais, o que significaria não atochar o pedal no assoalho quando me desse na telha.
Era certo que eu não daria ouvidos àquilo e acabaria pondo todo o trabalho em risco, então colei um papel no painel me lembrando de maneirar no acelerador pelos dolorosos mil trilhões de quilômetros restantes. Mas o esforço era preciso para atestar a qualidade do serviço e garantir a durabilidade do conjunto, agora ligeiramente maior e diferente de tudo que o câmbio, a injeção e até o motorista estavam acostumados.

Porém nada dura para sempre, e nesse meio tempo meu câmbio quebrou no meio da rua. Andei sem coletor e, por mais que sinta saudades do ronco estridente do motor, arranquei o “catalisador” e pus um cano reto no lugar, junto ao resto do escape original. O ronco novo, restrito apenas no lugar certo, dá um ar de que a originalidade, e com ela a lentidão do carro, ficaram no passado. Nisso tudo, enfim chegaram os 79.524 km, e com eles a troca do óleo e a regulagem dos tuchos, necessários depois dos mil quilômetros pós retífica.
Os resultados obtidos pelo novo mecânico não poderiam ser melhores: o óleo estava limpo e apenas 1 dos tuchos precisava ser regulado. Régua passada e 3 litros e meio de Castrol GTX 20w50 depois, o Gol estava pronto para sua reestreia nas ruas, à plenos pulmões.
O “Milleduzentos”
Confesso que depois da troca de óleo ainda não havia feito nada além de voltar pra casa, então um domingo nublado de pouco trânsito e um amigo inquieto por velocidade eram as desculpas ideais para o motor recém-amaciado mostrar à que veio. Sair das ruas do bairro lixando os Pirelli Cinturato e evocando os engates precisos da recém-reconstruída transmissão, que ainda mantém as relações curtas do 1.0, eram uma resposta boa ao tédio.
Mais uma vez eu me via naquela raríssima combinação de querer sair e o carro querer andar, e desta vez tudo muito bem misturado numa coisa só. O ponteiro do velocímetro subindo rápido, entre radares e curvas, sempre pedindo mais, era algo que seria até criminoso negar. O torque, agora muito mais linear, empurrava 900kg de carro e passageiros numa agilidade que eu nunca havia percebido, arrancando elogios até mesmo dos mais críticos.

No novo 1200i, as retomadas pareciam possíveis, as ultrapassagens não eram mais um tricotar infinito das varetas se debatendo, e a resposta do acelerador era muito mais limpa, esportiva mesmo. Mas o teste de fogo ainda estava por vir: a Serra da Grota Funda. Uma subida longa e serpenteada por curvas fechadas, era o calcanhar de Aquiles do Golzinho: por muitas vezes precisou reduzir marchas às mais baixas possíveis e nunca passou de 60km/h subindo de pé embaixo, tamanha a fraqueza do velho motor. Com passageiros e bagagem então, uma tragédia grega.

Com o pé da serra à vista, o carro não hesitou. Quarta marcha, pé embaixo e o giro ia subindo agradavelmente, provando que missão dada é missão cumprida. Do descanso tranquilo do engate abaixo e à direita, o câmbio não precisou sair da posição, e o carro subia a temível ladeira feliz da vida. Se não fosse por um Toyota Etios sedan “murrinhando” morro acima, a terceira estaria de férias até o final da empreitada.
Sinceramente, só de subir essa serra em quarta marcha, onde eu já tive o desprazer de ter que fazê-la em segunda, todo o processo da retífica estava bem pago: pistão à pistão, porca à porca. Sem tuchos irritados, sem válvulas batendo, sem óleo pelas ventas e sem reclamações, o Gol vestiu a carapuça de seus avós e provou ali que “na dura prova da serra, o Volkswagen vence tranquilamente”.

É bem verdade que muito além do carona e dos populares que acompanhavam o redondo automóvel azul, o mais impressionado ali era eu. A triste lerdeza do carro, digna de pena, havia sumido completamente e algo novo havia surgido ali naquele monte de aço e fios. De tão bom que está, acho até saudável não tê-lo recebido possante assim quando o comprei 3 anos atrás, ou com certeza teria já acordado de ponta cabeça no portão de alguém.
Pode parecer mais um dos meus muitos exageros e hipérboles, mas entenda o seguinte: não existe sensação mais gostosa do que finalmente ver um projeto, cujo investimento de dinheiro e tempo foi altamente desacreditado, dar certo. Assim como já disse várias vezes, salvei meu carro de um destino muito pior, e certamente não me arrependo um minuto sequer.
Este texto em teoria é um “O Volkswagen: Parte 3”, a continuação dos dois primeiros relatos em que explico as revoluções que o Gol trouxe para minha vida. É certo que este é o mais radical de todos eles, pois revela as grandes mudanças que o carro recebeu em ordem de ser usável novamente, mas acabou se tornando um animal completamente diferente. E para completo descrédito de alguns e desespero dos frentistas, também continua econômico.

Agradável no dia a dia, arisco quando provocado e mais companheiro do que nunca, o pequeno CHT tem demonstrado que de diminutos mesmo tem apenas as dimensões e a litragem do motor, mas a coragem do carrinho é gigante mesmo. Contra tudo e contra todos, seguimos em frente, pois a marcha-à-ré é curta demais.



