Seu Jair e o Fusca Série Ouro
Seu Jair e o Fusca Série Ouro

Seu Jair e o Fusca Série Ouro
“Meu maior arrependimento foi ter vendido ele”
Apesar do nome que hoje me causa completa repulsa, Seu Jair era um senhor adorável. Meu vizinho, morava na casa de esquina em frente à minha, e na garagem tinha aquilo que foi meu objeto de cobiça por anos: um Fusca Itamar Série Ouro 1996, na belíssima cor Verde Nice metálico.
Tão certo como ver o sol nascer diariamente, era ver aquele Fusca chegando em casa praticamente junto comigo, voltando da escola. Aquele carro sempre me chamou a atenção não apenas pelo já desperto desejo de ter um Fusca, mas por sempre estar limpo e com a pintura brilhando. Já com certa idade nas costas, Seu Jair era tão cuidadoso que colocava 4 tábuas de madeira sobre as rodas, pra que seu cachorro não as “batizasse” ao menor sinal de descuido.
Na época em que ele ainda era nosso vizinho, ele e meu pai eram amigos e sempre os via conversando na calçada, e das poucas vezes em que fiz parte da conversa, ouvi falarem sobre o desempenho do carro em viagens que fazia com sua esposa, acredito eu para visitar os filhos. Subindo ladeiras não havia pra ninguém, o que eu julgava ser impossível, afinal estavam falando de um Fusca 1600.

Sempre que me via, Seu Jair era vítima de infindáveis perguntas minhas sobre o Fusca. E de certa forma ele não titubeava em respondê-las, porque era visível que ele não só estava acostumado a pessoas perguntando sobre o fato dele usar o carro diariamente, mas também porque fazia isso muito feliz da vida. Lembro nitidamente que seu chaveiro era um Fusquinha vermelho, à fricção, e que ele havia me dado um azul de presente, infelizmente perdido logo depois.
Um pouco antes de se mudar, eu e meu pai o visitamos em casa pelo que seria a última vez com o carro. Debruçado no vidro do motorista e morrendo de curiosidade sobre o interior, ele me deu permissão para entrar no carro. De primeira, a mente de criança não conseguia entender como que um Fusca poderia ter um painel tão simplório, de fundo branco, plástico claro e um relógio (??), algo que pra mim não fazia o menor sentido.
Os bancos eram claros e com desenhos coloridos, e o volante de dois raios parecia tão grande e fora do lugar, algo que morou de graça na minha cabeça por anos, até comprar um Gol 1000i Plus com o mesmo volante espumado, algo considerado um luxo. O para-brisas quase colado ao rosto e o rádio Volksline no painel eram sinais de que nada ali era moderno, e nem tentava ser, mas era diferente e até divertido. Tempos depois, mais velho e devorando revistas e mais revistas sobre o assunto, fui me dar conta que aquele não era mais um Fusca comum.

Os emblemas dourados, o logo nas laterais, os bancos e volante de Gol Plus eram nada mais nada menos que a segunda versão de despedida do Fusca, agora na versão Itamar (1993–1996), chamada Série Ouro. Forrada com praticamente tudo que o velho sedan poderia oferecer, ela foi disputada à tapas pelos compradores, certos que mais uma vez a Volkswagen puxaria os aparelhos do carrinho, o condenando às páginas dos livros de história pela segunda vez desde 1986, com o fim da Série Prata. Disponível apenas em Vermelho Dakar, Branco Star, Prata Lunar e Verde Nice, ela logo desapareceu das concessionárias em 1996, já com preços e status de veículo colecionável.
Mas voltando à história, aquela breve visita ao interior do Série Ouro acabou sendo a última vez que veria o carro, definitivamente. Meses depois, Seu Jair já idoso e precisando de um carro mais confortável, trocou o velho besouro num Fox 1.0 duas portas, cinza chumbo se não me engano. Detestava o carro e, recém retornado de uma viagem ao Paraná, disse ao meu pai, num dos últimos diálogos dos quais me lembro: “Que saudade daquele carro, sabe? Esse novo é uma tristeza para subir a serra, o outro fazia sem pensar duas vezes, sabe? Meu maior arrependimento foi ter vendido ele, que saudade”.
Seu Jair e a esposa se mudaram para Niterói e nos últimos 10 anos viraram uma grande incógnita. Seu Fusca eu já tive o prazer de encontrar pelas ruas do bairro muitos anos atrás, mas já estava um pouco cansado. Se ainda estiver vivo, garanto que Seu Jair segue profundamente arrependido, e sinceramente eu entendo perfeitamente o porquê.
Hoje sonhar com um Itamar Série Ouro é algo bem difícil, pois custam uma fortuna e, quanto menos rodado, pior. Quem sabe um dia quando deixarem de valer o mesmo que um Iate de 30 pés.



