Imagem e Semelhança
Imagem e Semelhança

Imagem e Semelhança
A mão que afaga também apedreja
Hoje o Monza quebrou no meio do rolé. Do mais absoluto nada, sem dar nenhum sinal prévio ou qualquer coisa que pudesse me preparar para lidar com o fato: foi do céu ao inferno em 1 minuto cravado.
Aos trancos e barrancos voltei pra casa, e após uma pequena via-crúcis para empurrar (e rebocar) o velho sedan de quase uma tonelada e meia pra dentro da íngreme garagem, entrei em modo de análise. Não era minha primeira vez lidando com imprevistos assim, afinal o Gol me deixara na mão outras duas vezes no passado, mas uma coisa era bem cristalina: meu completo desapontamento com tudo aquilo.
Um coquetel mal batido de frustrações automotivas com a busca quase imediata pelo motivo do enguiço era só o que eu queria enxergar, e nem me dava conta do quão aéreo e alheio a tudo estava naquele momento. Não havia batido o carro, apostado as chaves num racha e perdido, e tampouco voltado pra casa com uma vaca morta amarrada ao teto: tinha apenas tido uma pane na rua em algum sistema, mas quem estava desconfigurado era eu.
Isso me traz uma constatação bem nítida: somos extremamente dependentes do carro, não como objeto, mas como um organismo vivo. Quase como um instinto paternal primitivo, sentimos culpa por não termos evitado algum problema eventual, e que por menos que tenha sua responsabilidade direta com o problema, não há para onde fugir, você vai se sentir mal ou ao menos estranho com aquilo.

Volta e meia vejo no meu círculo social pessoas (que tenham carro, pra início de conversa) relatarem seus amores e desamores sobre essa caixa de pandora automotiva. Na grande maioria é um misto de êxtase quando as coisas dão certo versus a mais pura e genuína raiva quando algo dá errado. Não tem meio termo, é 8 ou 80.
De tanto lidar com os problemas das velhas jabiracas, alguns (e eu também) encaram o amor pelo antigomobilismo, seja por gosto, necessidade ou ambos, um completo castigo. Como pode alguém gostar de algo que só te dá prazer em momentos muitos específicos e geralmente só devolve dor de cabeça e gastos mil? Loucura total.

Por mais louca que essa relação pareça, você sempre verá alguém querendo estudar, entender e melhorar seu carro. Algo que pra qualquer outsider não faz o menor sentido, e do ponto de vista prático não faz mesmo, mas você já abandonou esses conceitos à muito tempo, então não há porque ligar.
Querendo ou não essa montanha russa emocional que é ter um carro antigo é parte dum processo muito maior: revelar que isso tudo é a versão mais crua de você mesmo. Gritante, imprevisível, passível de quebras e da ira de quem tenta te interpretar e falha miseravelmente. É muito mais emoção do que qualquer outra coisa, e desta vez não é sobre o temperamento do carro em si, mas do seu mesmo. Seu carro é sua imagem e semelhança, e nem tente fugir desse fato.
É de fato normal se sentir impotente diante de uma eventual quebra, um imprevisto ou mesmo uma batidinha que seja, afinal isso fere diretamente aquilo que você preza e cuida, logo te representa. E se te representa, é você mesmo, frente e traseira.
A verdade é um clichê muito maior que a vaga de estacionamento do seu prédio: o automóvel no fim das contas compensa apenas para aqueles que os amam, e no mais, precisam deles. Seja como objeto de uso, trabalho ou mesmo terapia, na maioria das vezes o investimento se paga.
Agora, o quanto isso te custa ou vai te custar, é incalculável. Dispense o lápis e a calculadora, você não precisa disso. Vá lá fora e faça algumas memórias com seu carro, assim que ele estiver pronto, pois no fim das contas é só o que importa.



