Estrada do Pontal
Estrada do Pontal

Estrada do Pontal
Barra da Tijuca, antevéspera de natal. Depois de muitas semanas apanhando das obrigações acadêmicas e suando pra sair delas intacto, tive a chance de sair de casa e ver uma velha amiga. Um dia muito proveitoso, mas que uma hora teria que acabar, pois as obrigações do programa me esperavam.
Cansado, de cabeça cheia pelo que ainda teria que fazer (virar a madrugada editando) e querendo chegar em casa antes que a chuva caísse, entro numa agulha errada na já entupida avenida, e resolvo cortar caminho pela praia, para ver se o rádio e o barulho das ondas me davam um desconto no meio de tantas ideias. Algo que até daria certo, se não fosse uma “véspera” de feriado e o clima estivesse completamente nublado. “Já que estou muito longe da reta de casa, vou passar pela estrada velha do Pontal, faz tempo que não ando lá”, pensei.
Menos de meio tanque de aditivada, carro na temperatura certa e ao sair da reta da praia me deparo com a estrada com poucos carros, resolvi não me chatear por não ter aquele pequeno trecho de asfalto apenas pra mim, afinal não precisava de mais preocupações naquele entardecer.

Conforme o Gol ia sumindo estrada adentro, os carros que andavam à frente foram sumindo, e finalmente tinha a estrada só pra mim. Quando finalmente decido aproveitar a situação para apertar o passo, caem algumas gotas de chuva no para-brisa. Me vem a lógica conclusão, sei lá de onde: “preciso vencer São Pedro e chegar em casa antes da chuva”. Pista vazia, foco total no momento e pouca vida inteligente pelos próximos 4.8km, era hora de pegar o 1200i pelo pescoço.
Eu gosto dessa estrada pelo fato de não ter muito movimento, ter um asfalto relativamente bom e curvas um tanto desafiadoras, uma caraterística que faz a estabilidade incrível do Gol brilhar quando provocada. Espeto a terceira e o carro parece ignorar a atmosfera pacata do lugar, agora abafada pelo escape direto e menos restritivo. Por ser um trecho de estrada com casas ao redor, existem alguns quebra-molas, mas isso é só uma desculpa para sair de motor cheio de cada um deles, afim de não perder tempo.
O para-brisas começa a receber ainda mais gotas, e aperto o passo. Os pedais próximos e bem posicionados fazem o Gol ter uma facilidade incrível para fazer o punta-tacco, e os engates curtos da transmissão parecem um casamento perfeito, mesmo depois de 26 anos de uso, prolongados por uma revisão recente. A redução da quarta marcha para a terceira parece feita sob trilhos, algo que apenas um toque firme dos dedos já garante a alavanca na posição certa, sem precisar procurar o espaço correto do engate (ouviu, Monza?). As pisadas propositais no acelerador para acertar o giro provocam um som abafado e arisco do motor, que sempre cheio, parece animado em estar girando. Nada absurdo e incapaz de precisar em números, pois não há conta-giros, mas você sabe exatamente onde o motor e o câmbio vão brilhar em sintonia, usando apenas os sentidos.

Alguns trechos da estrada são cegos, então você precisa estar atento à velocidade e a quem vem do outro lado, mas como não havia ninguém, pude esticar e ver se os Pirelli com 2 anos de uso ainda estão bons de rodagem. Rolagem da carroceria controlada e nem sequer um cantar dos benditos, reduzir e entrar apontando ladeira abaixo. O CHT gira feliz e parecendo um carrinho de rolimã, botando um sorriso no rosto deste que vos fala.
Eu não sei explicar, mas andar em estradas repletas de verde ao redor me dá uma realização incrível, como se estivesse num filme ou mesmo numa pequena viagem. Existe uma magia em estradas de duas faixas que uma highway ou uma via pedagiada simplesmente não conseguem replicar. É sim tudo mais seguro e prático, mas é morto de sentimentos, beleza ou mesmo emoção.
Poder esticar seu carro até o limite seguro da aderência numa estradinha é algo que eu não só recomendo, como acho necessário para que você entenda do que ele é capaz, não só de fazer mas de provocar em você mesmo. Mas de volta ao Gol.
Estava tão entretido esticando, acertando as reduções e vendo até onde os pneus iam, que quando dei por mim a estrada já havia acabado. Por fim, já que o carro estava andando tão bem que não vi mal em cortar a serra também, uma das melhores ideias que já tive.

Abandonada desde a abertura do túnel Vice-presidente José de Alencar, a Serra da Grota Funda é uma serpente de 5km de asfalto bom, deserta e desafiadora, tanto subindo quanto descendo. Deixando o passado cuspidor de óleo para trás, o Gol ia comendo o asfalto sem medo de nada. Todo aquele espaço (e um pouco mais) para fazer as curvas com a frente apontando firme, me fez esquecer do racha que havia feito contra as nuvens. Acabou que nem sequer choveu mesmo.
Esse texto nem é querendo dar um sentido bonito a nada, mas pontuar uma das raras vezes em que o Gol se mostrou meu amigo e não só fez o que eu queria, como renovou minhas esperanças naquele carro. Um bom trecho de estrada pode reacender tudo aquilo que um carro tem de bom para te oferecer, basta procurar.



