1200i e a Viagem ao Centro do Ego

Conheça teu carro como a ti mesmo


Se você me segue nas redes (@TheRTLima), sabe qual é o esquema do VW Gol da foto acima. Se não, recomendo dar uma olhada em textos anteriores, principalmente neste onde ele está em um guincho. Hoje, falarei não só sobre seu renascimento, como também sua última viagem.

Toda a questão do motor sem responder como deveria foi resolvida, ao preço de vários dígitos de Real e um capô amassado. Sem tempo para me preocupar com outra coisa senão a vida e o trabalho, pouco andei no carro depois de seu conserto, me restando uma viagem para saber como o conjunto agora se comportava.

Lavado e abastecido (Arquivo Pessoal)

Um fim de semana em Conservatória, distrito de Valença (RJ), era uma boa desculpa para colocar o Golzinho na estrada, e torcer para não voltar dela em cima dum guincho. Carro lavado e gasolina aditivada no tanque, era hora de ir. Antes mesmo de sair, ele se portava diferente.

Mas diferente como? A reposta veio logo ao ligar, com um acordar do motor bem mais linear de antes, ao custo de apenas dois segundos virando a chave. Ligado, a sonda lambda trabalhava bem regulando o conjunto, o que era um alívio. Não demorou muito, e com a lenta redonda, tomei a rua.

Nem tava quente, imagina (Arquivo Pessoal)

Pela primeira vez em anos não senti o carro amarrado, rodando “quadrado”, algo que achava normal por estar frio. Já na BR, em direção à Dutra, me deparei com o inimigo de qualquer carro antigo: um engarrafamento ridiculamente grande, por conta de uma carreta em chamas. Parado no sol e sem escolha, desligo o carro por uma hora e me ponho a esperar.

Tráfego começa a andar, bato na chave e pega de primeira, e poucos segundos já na temperatura certa, subo para a rodovia sem problemas. Tirando um abençoado num HR-V Touring que me fechou, não tive do que reclamar. Entretanto, assim que saí da Dutra e entrei em Barra do Piraí, anoiteceu bem depressa. Aqui as coisas ficam interessantes.

A Estrela Negra de Campo Grande

Tudo depois do trem seria, no mínimo, rápido (Arquivo pessoal)

Nessa viagem, coloquei meus pais no roteiro, uma vez que é saudável tirá-los de casa quando possível. Acompanhando o passeio em um VW Up TSI, assim que chegamos a Belvedere, deixei que meu pai fosse à frente. Meus faróis de 29 anos e mais desregulados que os de um Fiat Palio não me ajudariam, e um conjunto mais novo me faria desviar dos buracos. Mas não foi bem isso que aconteceu.

Cansados de esperar quase duas horas em um engarrafamento em um carro pouco amigável a grandes viagens, meus pais tinham pressa de chegar, uma vez que minha mãe gosta de dirigir à noite. Meu pai encarou a situação como um desafio, e puxou a fila. O que eu não esperava ver era meu velho aproveitar o ar frio e o motor turbo e me fazer provar que sabia dirigir pra valer.

(Antes disso, uma observação. No trecho inicial acima (Belvedere), há uma bifurcação, onde nos perdemos, uma vez que não havia sinal de telefonia, e o GPS enlouqueceu. Isso nos obrigou a andar 1/4 do trajeto na direção oposta, o que nos atrasou mais ainda).

De volta no trecho certo, o caixote preto da família apertou o passo rumo à Conservatória. Se na Dutra tive certa dificuldade em retomadas, nas muitas curvas da serra eu estava em casa, alcançando o Up preto sempre que possível. Nos trechos urbanos, minha diversão era deixar a segunda alta ressoar pelo escape, o que me fazia rir, me mantendo disposto.

Viagem ao Centro do Ego

Quando a serra finalmente recomeçava, deixávamos qualquer apressado que fosse nos passar, afinal aquilo não era uma corrida, e sim um passeio familiar, no fim das contas. Entretanto, depois de Ipiabas, a serra se encurta, e serpenteia bastante. Nessa hora, éramos apenas eu, o Gol, a lua cheia ENORME no céu e um frio que puta merda.

Ninguém atrás, era hora de puxar o que fosse possível, afinal faltava pouco para chegar. Com todos os vidros abertos e o fraco aquecedor ligado, acompanhava o Up da família frenagem a frenagem, entrando e saindo das curvas, assim como meu pai, que apesar dos protestos de minha mãe, não diminuiu o ritmo.

A lua e o ego (Arquivo Pessoal)

Nas retas em terceira, e nas curvas descendo em segunda, se você esticar bem o 1200i, ele te recompensa não apenas com o alto grave do escape, mas com um singelo pipoco, causado pelo conjunto pra lá de taxado. Mais um motivo para não atirar o cara que mexeu na injeção aos leões, completamente.

A adrenalina de andar rápido, com um carro a frente provocando e exigindo a atenção, me fez esquecer do frio por um momento. Ver despertar no meu pai um instinto de moleque, dos tempos em que “corria” em seu Opala Especial por Campo Grande, foi muito especial. Tanto que assim que chegamos ao hotel e desligamos os carros, dei-lhe um abraço, o que ele custou a entender o porquê.

Lighter than a Lotus

Dois motores de 1 litro, mas só um deles ronca bonito (Arquivo Pessoal)

Passado o fim de semana, após ter desligado minha mente de tudo, e de ter ficado nos braços de quem nunca deveria ter saído, me pus a voltar para casa. Desta vez, refaço o percurso à luz do dia, e consigo ver por onde passei, desta vez mais devagar. Uma estrada meio mal cuidada, um tanto esburacada, e que não me inspiraria a passar em alta se pudesse evitar.

Entretanto, não diminuí o ritmo. Com pressa de comer alguma coisa e vencer o sol, rumamos sentido Rio, planejando chegar em casa antes do almoço. Contudo, novamente meu pai me ultrapassa em um trecho de descida, e a alegria recomeça. Freada a freada, o escape roncando forte e os singelos pipoquinhos da desaceleração me acordaram para o momento, mais uma vez: era ótimo estar vivo, e ao volante do Gol mais uma vez.

Mesmo com a bagagem e com o titânico motorista ao volante, sentia o carro mais leve que o normal, porém nada incontrolável. De dia conseguia ver onde começar a frear, e o quanto de rolagem de carroceria é necessária antes dos pneus dianteiros cantarem. Era quase como se meu pai estivesse me ensinado a escutar o carro, à sua maneira. E de fato, eu conduzia de maneira muito mais “limpa” do que na correria de duas noites atrás.

Sim, tem um avião no meio da cidade (Arquivo Pessoal)

Sua pressa, no entanto, tinha um propósito: queria tirar fotos em um avião, parado no meio de Ipiabas, para mandar aos amigos. “Tira direito que eu vou botar essa no “Zap”, bradava no meio da praça. Feliz com tudo até então, me vi em um momento único: bater a chave no Gol e partir, sem me preocupar com nada.

Arquivo pessoal

Por ironia, acabei parando para almoçar no mesmo posto de gasolina onde ele quebrou meses antes, e não pude deixar de pensar no como a vida é engraçada. Após anos achando que seria incapaz de viajar com meu próprio carro, me vi fazendo isso tão confiante na máquina, que me parecia normal. E foi mesmo.

Meio que não importa a distância que se percorre em um carro, desde que você tire alguma lição disso. A minha foi um chacoalhar das ideias, me provando que posso (e devo) colocar meu carro na estrada, sabendo respeitar suas limitações, desde que eu esteja indo buscar alegria nele.

E eu fui.

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