Não Cobiçarás

A saudade tem a forma de um hatch médio


Antes de tudo, é preciso ser honesto: modelos médios raramente me cativavam. Mas como tudo na vida é mutável, um dia acabei mordendo a própria língua, e me vi saudoso de algo que nem mesmo possuí, mas gostaria que tivesse. Um Volkswagen Golf GLX 2.0.

Como todas as histórias automotivas, essa não começou do nada. Desde moleque, dos tempos em que gastava tardes e noites assistindo ao YouTuber Rato Borrachudo, ouvia o marmanjo com máscara de rato rasgar uma seda terrível sobre um Golf GLX MK3 que tivera, mexicano, como um senhor de idade que sente falta da juventude. Achava exagero.

Mal sabia eu que eu mesmo morderia a isca (OLX/Reprodução)

“É só um Golf que chegou atrasado no Brasil, não tem nada de mais nesse carro”, pensava. Anos passaram, e nos muitos comentários com o amigo de vida e profissão Mauricio Campelo, o Golf de terceira geração voltava ao centro da roda. Desta vez observava de perto o hiperfoco do amigo, que ainda não parcialmente desgostoso da ideia, muito falava sobre.

Isso me lembrava das primeiras vezes que ouvi falar desse carro, e do comercial de lançamento no Brasil, visto algumas vezes na internet, quando ainda não trabalhava. Mais velho e influenciado pelas ideias do amigo, cheguei a olhar alguns anúncios, no ledo e amador ensejo de vender meu amado carro, coisa que felizmente nunca fiz.

O culpado tem cor de vinho e uma placa MUITO off-set (Enio Junior/Reprodução)

Avancemos a 2022. Novamente um Golf MK3 aparece na roda de amigos, desta vez nas mãos do amigo Enio Junior. Vermelho-vinho, um pouco mais baixo, e com a placa dianteira mal-posicionada, bem abaixo de onde normalmente iria, rasgava elogios por onde passava.

Mais tarde, descobriu-se um escape dimensionado 4×1, que dava um toque mais grave ao 2.0 de fluxo cruzado. Embora tenha apenas andado de carona em duas ou três vezes, e tenha recusado guiar o carro quando possível (o que hoje me arrependo), vejo que esse modelo marcou minha mente, de forma que hoje, quase três anos desde seu “fim”, ainda não o esqueci.

Nunca colocamos os dois 2.0 lado a lado, talvez eu tivesse chance (Acervo Pessoal)

O carro era cheio de pormenores, acabamentos quebrados/faltantes e idiossincrasias, mas era cativante, acima de tudo. Era o tipo de coisa que você vê e fala “eu posso te consertar”, e depois se dispõe a sofrer buscando acabamentos e pagando mais caro em peças supostamente importadas. É um carro tóxico, não dá para negar.

A última vez em que andei, refugiado de uma prova que eu nem queria ter feito (Arquivo Pessoal)

Mas, por que esse carro ainda povoa a minha mente? Antes de me explicar, é preciso saber que fim tomou o Golf. Influenciado pelos suscetivos problemas e custos de manutenção, e apoiado pelo patriarca da família a ter algo “mais fácil de manter”, Enio trocou o carro em um Gol CLi 1.8, que o tempo mostrou ser um amargo arrependimento.

Até mesmo os amigos, que tiveram de pouco a nenhum contato, sentem a falta do Golf. Talvez a pintura brilhosa, o stance quase perfeito (pois raspava muito e custou um lip dianteiro) e o ronco encorpado fossem quase como um canto de sereia, levando sedentos marinheiros às pedras fatais.

Eu juro que não me lembro de um Volkswagen com bancos mais macios que esse. (OLX/Reprodução)

E quanto a mim? Em mim ficou o registro dos bancos de veludo grosso, que excessivamente macios, davam inveja à Santanas mil. O desempenho de colar no banco, acompanhado pelo encorpado 2.0, que pouco trabalhado e aliado ao baixo carro, fazia milagre nas curvas. Foi um prazer existir no mesmo tempo em que esse carro.

Hoje a ideia me corrói, dentre minha muitas ansiedades automotivas, de ter um para chamar de meu. Quem sabe?

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