Meu Primeiro Carro


Onde o problema realmente começou

22 de Junho, dia mundial do Fusca. Essa data sempre esteve gravada na parte de trás da minha cabeça tal como um código de peça, porque é relacionada a uma grande paixão pessoal de muitos e muitos anos, que eu nem preciso te dizer qual é.

Em Janeiro de 2000, munido de mil reais e com a tarefa de ter um segundo carro para usar à trabalho, meu pai entrou em casa com um Fusca 1500 1972 pela primeira vez. Eu tinha apenas 4 anos, mas tenho a memória plena de reconhecer aquele vulto redondo e azul-marinho desde muito novo, sempre à esquerda do portão de casa.

Os anos passaram, o Brasil ganhou a Copa e uma infinidade de Corsas Classic passaram por aquela garagem, mas o Fusca permanecia ali. Minha primeira grande memória com aquele carro era meu pai, todo orgulhoso, tirando as lanternas Fafá amareladas (que não eram originais do carro) e substituindo por outras ovaladas e quase rentes ao paralama traseiro. Eram terríveis de olhar e de extremo mau gosto hoje em dia, mas eram os anos 2000, ninguém fazia ideia e, como sempre é em modificações como esta, fora feita na melhor das intenções.

Feito isso, ele me chamou e perguntou o que eu achava. Pirralho e ainda sem muito interesse em carros, disse que achava legal e logo após isso ouviria as palavras que me moldaram pra tudo que sou hoje: “Quando você crescer esse carro vai ser seu. Você vai à faculdade com ele um dia”.

Na hora eu nada senti, afinal era apenas criança, mas conforme os anos iam passando, a ideia ia assentando na minha cabeça e formando as bases do duplex de frente pra praia que aquele carro ia alugar na minha mente. Uma vez por semana, meu pai ligava o motor “pra manter esse carro funcionando”, e eu era sempre incumbido da tarefa de dar a partida. O medo inicial de fazer algo errado com o tempo foi sumindo, e logo eu conhecia aquele painel como ninguém mais.

Meu finado cãozinho, ainda jovem, no capô do Fusca em 2006. A saudade dos dois é imensurável. (Arquivo Pessoal)

Aquele carro era um completo Frankenstein ambulante. Motor 1600, rodas largas e paralamas de vários modelos diferentes, somado a bancos de Palio (acho) e o temível volante bumerangue, cujo miolo era permanentemente solto e tinha uma volta e meia de folga. O ronco desregulado era completado com escapamento Kadron, que muitos anos depois fui entender que era um barulho que eu faria questão de querer ouvir de novo.

Conforme eu crescia, a vontade de tomar aquele carro para mim era cada vez mais latente. Diga com toda sinceridade: quantas pessoas no seu ensino fundamental poderiam dizer a você que já tinham um carro pra quando completassem 18 anos? Pois é. O que numa sociedade restrita a uma sala de aula era apenas status, pra mim aos poucos virava paixão mesmo.

“Esse carro não tem jogo”

Claro, o destino tem um humor único e muitas das vezes destrutivo, e aos poucos o carro passou a se distanciar de mim por motivos muito além da minha vontade. O empréstimo a um tio barbeiro rendeu um capô novo, e o quase “sequestro pacífico” do carro por outro tio por mais de 4 anos fizeram aquele sentimento de futuro com o Fusca ir sumindo, mas nunca completamente.

Absolutamente tudo que fizesse referência ao carro era certo de chamar minha atenção. (Arquivo Pessoal)

Revistas, livros, miniaturas e almanaques iam alimentando aquela fome absurda de quer saber tudo sobre o carro que seria o meu primeiro, aquele passaporte pra liberdade que me faria dar cor a todos os sonhos, ideias e trilhas sonoras que ocupavam um espaço maior do que ciências e matemática na minha cabeça.

Nisso, meu pai aos poucos cansava-se ainda mais do carro, que aparentava ter se esquecido da promessa que me fizera anos antes. Queixava-se da falta de “jogo” da direção, do motor cansado e dos ruídos e intermináveis problemas que apareciam no velho besouro. Até que numa tarde qualquer, voltando dos últimos dias de ensino fundamental, o carro havia sumido, e dado lugar a um Triciclo.

Feliz com a troca do século e completamente esquecido daquilo que pra mim tinha ares de completa traição, prometeu-me comprá-lo de volta quando se cansasse daquele carro alegórico feito de restos de um Fusca mal-documentado. (In)conformado, segui em frente.

Devo reconhecer que aquela decepção automotiva despertou em mim a vontade de procurar outras coisas, e muito profundamente, caçar joias escondidas. (Arquivo Pessoal)

“Fuscão: Aumente a Dose”

Veio ensino médio, faculdade e a paixão por Fuscas nunca largou a minha vida. Conforme os passos iam se acertando e com a CNH em mãos, era a hora e o momento para finalmente comprar um Fusca para chamar de meu, e não poderia ser qualquer um: tinha que ser um Fuscão 72 azul, afim de suprir aquele vazio na minha garagem desde 2009.

Eu tinha achado o meu modelo perfeito depois de anos de pesquisa: tinha que ser Azul Pavão, 1500, com faróis “olho de boi”, bancos gomão e interior imitando Jacarandá. Era isso ou nada. (Arquivo Pessoal)

Depois de anos lendo Fusca&Cia, infindáveis fóruns e vídeos de um certo youtuber ensinando a comprar Fuscas usando um 72 Vermelho Montana como exemplo, eu estava perdidamente decidido. À época, ainda existiam alguns Fuscões em bom estado a preços até justos, mas que não acompanhavam meus Cruzados Novos.

Depois de aceitar procurar outros Fuscas minimamente parecidos afim de não ficar sem nada, até encontrei alguns, mas nada encaixava naquela vaga vazia na minha garagem. Aquele triste alegoria de três rodas, agora AP, já havia ido embora, mas a paz não havia habitado em mim. As buscas continuaram e continuaram, mas caíram no que você provavelmente já conhece, meu estimado Gol 1200.

Hoje eu encaro essa parte da vida como um aprendizado, afinal de contas não é apenas de sonhos que se constroem histórias, mas também de tropeços e realizações. Não existem culpados, apenas desvios somados ao destino final. Ainda creio que terei um Fusca para chamar de meu que cumpra o mínimo dos meus requisitos, e que se este não o fizer, certamente a estética VEB e um veneninho básico no motor pagará a conta.

A moral é que é bom ter um porquê de se aventurar nesse louco mundo automotivo, afinal você nunca passa um dia sem aprender alguma coisa, quer você queira ou não.

Obrigado ao meu “primeiro primeiro carro” por me fazer ser quem eu sou hoje, e estou certo de que nossa história ainda está longe de acabar.

By Rodrigo Tavares on .

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