Tão Perto, Tão Longe
Tão Perto, Tão Longe

Tão Perto, Tão Longe
A liberdade é um sonho com motor 1.0
O que te faz pensar em liberdade? um sábado à noite com seus amigos? talvez um dia em casa sem preocupações? Independente da resposta, você sabe que é um momento só seu. O tempo parece passar mais devagar, mesmo que você saiba que esse momento não vai durar, e mesmo assim o aproveita.
Como não poderia deixar de ser, este é mais um longo texto sobre carros, mas desta vez o centro dele não será o meu.
Um caro colega, a quem chamarei de Mr. M, adquiriu um carro de leilão. Um Fiat Palio, com o valente motor Fire 1.0, vermelho sólido, a quem chama carinhosamente de “Charlinho”, acredito que em homenagem à Charles Leclerc, piloto da Scuderia Ferrari na Fórmula 1.
Ele e seu Fiat são inseparáveis, como todo bom petrolhead e seu carro hão de ser. E como é um significativo avanço tecnológico frente ao seu antigo Palio 96, tem amenidades modernas, como ar condicionado, freios decentes e o mais importante: alguma potência. Vista dessa forma, essa união homem-máquina parece o melhor dos mundos. Mas apenas parece.
Como bem foi dito, é um carro de leilão, o maior submundo automotivo depois da OLX de madrugada e das turmas de reciclagem numa autoescola. Geralmente carros leiloados tem um histórico de donos relaxados, e um passado tenebroso o suficiente para afastar compradores normais, além de problemas mecânicos muito bem escondidos. Mas isso não seria problema para o nosso herói, que fora presenteado por seu pai, mecânico, na melhor de suas intenções.
O que Mr.M não contava é que seu amado Palio tem uma restrição judicial. Isso significa, em termos curtos, que o carro vive num purgatório automobilístico, não podendo rodar na rua até que se resolva a pendência, e muito menos ser transferido ao atual dono, afinal não se sabe quem foi o antigo proprietário.
Logo de cara eu entendi o porquê de sua tamanha agonia. Seu carro estava parado na garagem à espera do perdão divino da sagrada justiça brasileira, muito conhecida por sua rapidez e agilidade em pequenas causas (ou qualquer uma). Sem poder sair, o Palio era apenas um monte de aço mineiro de suspensão macia jogado num canto da casa. E mesmo que ele saia de casa às escondidas, sabe que não irá muito longe, sob risco de perder um bom dinheiro, ou mesmo o carro.
Isso me lembrou imediatamente da época em que eu procurava pelo meu primeiro carro. A pressa, o aval de meus pais e o desejo de muitos anos de tomar as ruas de assalto à bordo do carro mais importante da minha infância, um Fusca 1500, eram sensações que me davam um coquetel mal batido de sentimentos. Ansiedade, imediatismo, pressa e uma cegueira inacreditável pelo carro ideal me deixavam 100% alheio a tudo que acontecia naqueles dias.
Era tudo muito perto e ao mesmo tempo muito longe. O fato de finalmente ter um carro pra chamar de meu, poder mexer e modificar, e o mais importante, levar a mim e à meus amigos na praia de vez em quando era palpável e iminente. Mas as sucessivas falhas em negociações, carros ruins e pressões pelo carro perfeito me deixavam bastante pra baixo às vezes. O que eu não sabia era ter paciência.
E esse não era só o meu problema, mas o problema de todo petrolhead/gearhead. Somos imediatistas, e somos porque queremos liberdade à todo custo. Acreditamos que o carro é nosso cartão de embarque para um momento tranquilo, onde esquecemos dos problemas e nos concentramos naquilo que entendemos e gostamos, longe de trabalhos de faculdade ou pessoas desagradáveis.
Ok, sabemos que é extremamente clichê o mantra do “relação homem-máquina”, mas compreenda: para quem precisa de algo exatamente agora, o mínimo basta. É aí que entra o famigerado carro 1.0. Sabemos que ele é lento e outros defeitos mil, mas para fugir por um momento deste mundo, você não precisa de mais que um câmbio curto e um motor girando alto.
Portanto, a espera é sempre válida e necessária, porque sempre irá te colocar no caminho da liberdade, de um jeito ou de outro.
Boa sorte, Mr.M.



