A Escapada
A Escapada

A Escapada
Fuja dos seus problemas, 1 km/h de cada vez.
Bom, estamos todos presos em casa. Se você tem o mínimo de juízo e não vive debaixo de uma pedra, sabe que o Mundo inteiro está passando por uma pandemia de Coronavírus, algo terrível e que vem se arrastando pelos últimos meses, infelizmente. Então ficar em casa é o melhor ato que se pode fazer, tanto em prol da sua saúde quanto a dos outros. Mas não falemos disso, e sim de carro.
Na noite de meados de abril em que escrevo esse texto, fazem 19 dias desde que saí com meu carro pela última vez. Não parece muita coisa, ainda mais se comparado a quem nem tenha uma carteira de habilitação e possa estar lendo isso (ou sequer possa sair de carro em momento algum), mas compreenda o meu ponto de vista, pelo menos desta vez.
Naquele dia em questão eu pus na cabeça que precisava sair um pouco. Estava beirando a Paranóia, e achei por bem que furar a quarentena me faria bem, mesmo sabendo que não deveria. Não levei em conta que o lugar onde moro meio que ignora o problema, então a neura era mais que justificada. Aviso a família, ligo o carro e deixo esquentar um pouco, algo que nunca costumo fazer, mas fiz porque sabia que ele se portaria melhor na estrada assim.
A missão era muito simples: “dar umas voltas no bairro (obviamente sem sair do carro) e voltar pra casa. Coisa simples, devo levar uns 30 minutos, só o tempo do óleo subir pro motor e saciar minha vontade de dirigir.” Ledo engano. Conforme o carro esquentava, o fato de estar dirigindo novamente depois de muitas semanas me atingiu que nem um anestésico: eu me perdi no que estava fazendo.
Pela primeira vez o carro subia de giro sem muita reclamação. As trocas de marcha, sempre um show à parte em carros Volkswagen, eram mais precisas do que nunca. E a embreagem, sempre alta e com o peso tão grande quanto o próprio carro, nem parecia tão pesada. O carro parecia feliz.
No rebote da crise, as ruas estavam vazias. Do meu bairro fui a outro, e outro, e outro, que quando dei por mim já estava indo sentido à Barra, um destino pra lá de longe de onde eu moro. Naquele momento eu despertei para o que estava fazendo, olhei pro relógio no pulso e vi que já tinha passado uma hora dentro daquele estranho passeio. “Ainda tem luz do sol, não faz mal dar uma esticada”, pensei.
Apontei o carro a direção da larga avenida que leva para a serra, mas assim que cruzei a pista, vi o enorme engarrafamento de pessoas voltando do trabalho. Ok, era a hora do rush, e as pessoas deveriam estar em casa, mas logo acordei para o que teria que enfrentar se quisesse dar continuidade a aquilo. Desapontado, fiz o retorno e estava decidido a voltar pra casa. Porém, cruzando novamente a mesma avenida, a sorte decidiu me sorrir. Longe do foco daquela manada de jamantas pratas e pretas havia uma curva à direita, com os dizeres “Estrada Velha da Barra de Guaratiba”. Não pensei duas vezes, saí daquele nó de carros e sumi naquela estrada, que outrora foi a única ligação entre a “extrema zona oeste” e a praia, e que quase ninguém usava.
Eu parecia ter entrado novamente em uma espécie de transe, mas diferente desta vez. Minha atenção na estrada era total, e mesmo que eu provocasse o Gol pedindo por mais velocidade, e ele estranhamente respondendo, precisava ter cuidado, afinal haviam alguns quebra-molas e era um perímetro urbano. Mesmo assim nesse momento fica evidente uma das maravilhas do carro 1.0: você não precisa de muito pra se divertir, o limite está dentro do limite de velocidade.
Conforme as árvores na estrada davam lugar à casas e mercados, a Estrada Velha da Barra dava adeus, afim de revelar o que eu havia ido buscar: a Serra da Grota Funda.

A serra é deserta desde que inauguraram o túnel da Grota Funda, então só moradores e alguns caminhões ainda passam por ela. Para alguém com um Gol 1.0 e bastante sede por liberdade, era o convite perfeito para esticar as pernas, e ao menos tentar deixar os problemas para trás.
Depois da longa subida, e de inúmeras reduções de marcha, veio a descida. A serra, do ponto de vista de quem sobe sentido Recreio (foto acima) é de duas faixas, que viram uma só lá no topo. Daí as curvas que restam são fechadas e cegas, e não dá pra ver quem está vindo na direção oposta. Descer ela chovendo ou com os pneus em mal estado é um pedido direto para conhecer Deus, sem escalas.
Conforme o Gol embalava na descida, já deixava o pé em cima do pedal do freio, sabendo que logo ele ia se fazer útil. Mesmo assim, a sensação de ter a carroceria inclinando um pouco mais do que deveria, somada a suspensão naturalmente macia e molenga do carro popular falaram mais alto, então decidi manter o ritmo. Por mais que ele parecesse estar chegando ao limite, os pneus se recusavam a cantar e sair do traçado, algo EXCELENTE para um carro de tração dianteira.
Terminado o momento “e não é que ele faz curva mesmo”, encosto no posto no pé da serra para calibrar os pneus. Olho o relógio mais uma vez: 6 da tarde, está anoitecendo e é hora de voltar. Subo a torturante serra mais uma vez, afim de evitar uma ligação dos meus pais perguntando onde raios eu estava. Na descida da outra ponta da serra, mais uma vez o Gol me surpreende, mostrando que um carro de 25 anos ainda pode empolgar, apesar de suas limitações. Não cabe comentar o que ele fez, mas deixemos que o comentário de um grande amigo nos explique alguma coisa:

Depois de mais uma vez voltar pela mesma Estrada Velha, e de finalmente chegar em casa, me dei conta de que estava de espírito renovado. Percebi que, apesar de todos os fatores que estavam envolvidos nessa escapada, tudo convergiu para que eu tivesse alguma paz no meio disso tudo. Eu gosto de pensar que isso também é benéfico pro carro, que mesmo incapaz de se comunicar em palavras, faz isso por meio de pequenos gestos. É preciso uma sintonia fina pra entender isso.
Mas é sério, fiquem em casa.



