A Magia do Monzatec
A Magia do Monzatec

A Magia do Monzatec
A beleza e potência do motor GM Família II na mão de dois desavisados
Texto conjunto de Rodrigo Tavares e Maurício Campelo Filho
Olá, o texto que você vai ler agora foi desenvolvido em parceria, portanto será dividido em duas partes. A primeira escrita por mim, Rodrigo, e a segunda pelo meu grande amigo Mauricio Campelo, a quem enchi o saco para que este relato ganhasse vida. Boa leitura.
Bem Vindo ao Iate Clube
Eu convivi com muitos Chevrolet durante a infância, e com exceção de uma Meriva 1.8 e um Prisma 1.4, eram todos Corsas Classic e Celtas 1.0. Nunca foram nenhum suprassumo de potência, mas eram muito espertos na cidade e tinham um consumo bastante satisfatório pra uma família de 3 pessoas que só andam de ar condicionado ligado.
Lá fora chamam de “Econobox”, “Shitbox” ou o que quer que seja, mas aqui eram o único carro da família por muitos e muitos anos. E quando finalmente tive a chance de guiá-los, rejeitei logo de cara. Com a ergonomia de dar inveja a uma cama de pregos, sempre me senti acanhado e mal posicionado neles, mas uma única coisa me animava: a leveza e a arrancada. O Classic, apesar de todos os seus problemas, era bom de estrada, e o Celta era o terror das saídas de sinais de trânsito.
Mas mesmo assim uma dúvida permanecia plantada na minha cabeça: “como deve ser o tal motor 2.0, que equipava absolutamente tudo de bom na GM à época?” Até que num golpe de sorte, chegou a minha vez de descobrir isso, da maneira mais “velha escola” possível: à bordo de um Monza 92.

De primeira impressão, tirando as dimensões titânicas do carro, o motor era relativamente redondinho, apesar de seus 30 anos, mas que faziam jus à baixa quilometragem pra idade, 93 mil km. No primeiro contato, apenas a lenta exageradamente alta incomodava, mas nada que uma inspeção mais atenta não identificasse se tratar de falta de uma manutenção preventiva mais profunda, e a troca de um sensor de posição de borboleta (TPS), que comanda justamente a marcha-lenta do carro. Peça trocada, hora do teste de verdade, sozinho.
De primeira o carro é um tanto amarrado, mas ao buscar em fóruns específicos sobre o assunto, vejo se tratar de algo comum, a fim de buscar economia ao rodar (algo irônico num carro que eu aposto que não faz 11km/l). O rodar é bem macio e o torque até 2 mil rpm é muito satisfatório, onde uma seta laranja no painel simplesmente acorda e avisa num tom bem sério: “troque de marcha!”. Melhor obedecer.
Se a partir da primeira marcha (que é bem curta) você estiver mesmo destinado a pisar fundo no bicho, e ignorar completamente a ditadura do econômetro, o carro acorda de uma maneira incrível. A frente dá uma leve arqueada (ajudada pelos amortecedores cansados) e ele parece destinado a buscar qualquer coisa que você queira, desde que seja rápido.

Essa semana mesmo, ao querer entrar numa avenida bem movimentada, resolvi esticar as duas primeiras marchas. O motor Família II (apelidado carinhosamente de “Monzatec” justamente por estrear nos Monza 1.8 e 2.0 dos anos 80) fazem os pneus aro 13 jogarem a tração pela janela, e lá vai você de cara pra cima e com uma toneladas e uns quebrados ao seu redor, sem medo de ficar pra trás. E que por incrível que pareça, freia muito bem, para meu completo alívio.
Claro, os engates da GM requerem paciência e não são tão rápidos e diretos quanto um motor horizontal pode permitir, mas com o tempo pega-se o jeito. O velho sedan deixa a carapuça de carro de vovô e vira um Exocet travado em direção ao alvo. Pisque duas vezes e você está a 80 em uma zona de 50 por hora. Sinceramente falando, nada mal MESMO pra 110cv e 16,6kgfm de torque.
Não tem o mesmo apelo e drama de um AP 1.8 S e imagino eu que deva ter seus pecados frente à um Santana 2.0, mas é um Monza monoponto, então tenha paciência. A grande verdade é que é uma delícia de guiar e muito, mas muito convidativo à multas por excesso de velocidade. Pode ser um típico iate terrestre de gente idosa, mas não se deixe enganar: é um desempenho de dar susto no mais cético dos jovens.

Agora, se você não se interessa por quinquilharias velhas que nem eu, fique com a opinião de quem andou em coisa muito mais nova (e potente).
Velhos Navios Querendo Voar
Diferente do Rodrigo, nunca tive GM em casa, só um celta que ficou menos de um ano e mal era utilizado. Meu primeiro contato com o “Monzatec” foi num Vectra 2008 automático. Apesar do câmbio ser antigo e ter apenas 4 velocidades, quando o assunto é conforto esse carro dá aula, embora eu acredite que o modelo da virada do milênio seja mais confortável, mas não pude comparar em condições de igualdade.
Acostumado a dirigir veículos básicos e de projetos dos anos 90 desde a minha formação como condutor, a ausência de barulho no Vectra é espantosa. Se estiver conversando dentro do carro com pista livre, você com certeza receberá uma foto exclusiva do seu carro, e pagará caro por isso.
Não que seja um prazer acelerar forte, esse câmbio automático só te dá prazer se essa palavra significar conforto, mas se você descuidar, ele te entrega velocidade. Na estrada, já me peguei a 140 por hora sem perceber e nem forçar a dupla motor e câmbio, se der embalo ele vai embora, é perigosamente excitante.

Mas dizem que os melhores perfumes estão nos menores frascos, e na Família II da GM, creio que isso seja verdade. Monza e Vectra eram os carros de conforto da Chevrolet durante suas vidas, o auge do mero mortal da classe média ou do empresário que não tinha como comprar um importado. Mas abaixo do Vectra (utilizando o recorte mais contemporâneo) havia o Astra, e é aí onde as coisas ficam interessantes.
Com dimensões menores, o Astra era o carro do jovem endinheirado, do filho do empresário já citado, ou de qualquer pessoa que queria andar rápido. Foi o concorrente do queridinho e até mesmo ícone de uma geração, o Golf. Para competir com os alemães, você precisa de um bom produto, e o Astra (também alemão), é.
Como eu já disse em outro texto sobre o Família II, naquele caso um Vectra 98 manual, fui avisado que o Astra com 140 cavalos era um foguete, e agora eu comprovei, é. O tamanho menor (estamos falando da versão hatch) faz a vida ser muito mais fácil dentro do carro, a posição de dirigir é boa, os espelhos pegam muito bem, os bancos (geralmente de veludo) são agradáveis, mesmo os que já estão desgastados. É um carro de convívio pacífico.
Quando um Astra com a cavalaria citada acima aportou na oficina do meu pai, eu babei no carro praticamente o tempo todo, analisei todos os detalhes, e como aquele estava desde zero com o mesmo dono, toda a história do carro era conhecida pelo meu pai, e o pior, poderia ter sido dele. Esteticamente um automóvel ainda muito íntegro, me arrancou suspiros e sorrisos nos dois dias que ficou sob os cuidados do meu pai.

“Maurício, vai ali no posto completar de etanol pra mim? Tenho que adiantar outro carro aqui.” “Só cuidado, tá? MUITO cuidado.” Mesmo utilizando máscara, dava pra ver um sorriso gigante no meu rosto, que fiz questão de esconder do meu pai. Na rua, o carro tinha uma britadeira no lugar do motor, provavelmente os suportes de motor e câmbio já foram pro espaço há alguns anos, e transferiam toda a vibração para a carroceria. Mas quando precisei cortar dois ônibus parados no ponto, nada disso existia mais.
2ª marcha, 2500 giros, é onde a magia acontece, 100% do torque do monzatec é entregue e dirigir se torna uma experiência mecânica maravilhosa. Após cortar os ônibus, freio e entro no posto. Para o retorno, decidi pegar uma rota uns 5 minutos mais longa, porém, com menos tráfego, afinal, cuidado com o carro que era de um cliente (que quer vender o carro pro meu pai, mas ainda é cliente). Mas acabou que caí numa retinha pouco movimentada, onde eu também dirigi um Polo TSI. O Astra não te dá o empurrãozinho dos motores turbinados modernos, mas a experiência mecânica é muito mais divertida.

O trocar das marchas, a sensação de velocidade e em comparação com o Vectra que estou acostumado, é muito mais orgânica e sensorial, e além do mais você não sente que está em cima de um colchão inflável polishop. Chego aos 80 por hora, sem forçar a terceira ou quarta marcha, freio, e ao parar num cruzamento, chego a três conclusões: Ainda vou ter um Astra de 140 cv, meu pai estava certo novamente, e por último: Graças a Deus ele nunca comprou esse carro.
Ao chegar na oficina, meu pai diz: “Esse carro é um perigo, né?” só respondi: “Ainda bem que você não comprou, mas se tudo der certo, um dia eu vou.” Meu sorriso provavelmente me denunciou.
Hora de fazer aquela fezinha na loteria, e se eu comprar o Astra, me certificar de contratar um bom seguro, e torcer pra não viciar meus amigos nesse carro também, pois contei para um que está tirando a habilitação: “você PRECISA dirigir um Astra ou Vectra, vai entender porque seu tio, e meu pai também, não largam esses carros”.



