A Meriva
A Meriva

A Meriva
Eles não gostam de ti, mas minha família gosta
As vezes eu esqueço do quanto carro sempre foi importante pra mim enquanto crescia. Mesmo depois daquele Gol destruído e do mar de Corsas e Celtas, um desses muitos carros que passaram pela minha família ficou gravado na memória pra sempre: um Chevrolet Meriva 1.8, ano 2008, Preto Liszt.
Eu sei o que você está pensando: “Uma Meriva? Aquele carro esquisito? Aquele “Corsão” enorme?” Sim. Aquilo meio hatch, meio minivan, totalmente familiar e fora do comum foi capaz de entranhar nas veias deste que voz fala, por boas razões que vão além do saudosismo. Vamos aos fatos.
Depois de anos à fio pulando de um Corsa Classic ao outro, e já descoberto todos prós e contras de um dos primeiros Prisma 1.4, a situação permitia procurar algo que acomodasse melhor a família, e não fosse mais um sedan pequeno. Opções na mesa, era hora de decidir: pela primeira vez teriamos uma minivan.
Quando ouvi minha mãe dizer isso pela primeira vez meus olhos brilharam, pois pra mim a resposta para a equação era apenas uma: Zafira.

Visitas prévias às concessionárias, dezenas de folders e revistas sempre diziam aquilo que eu queria ouvir: a Zafira era O CARRO familiar à se ter.
Conforto de sobra, teto solar, motor 2.0 e acabamento primoroso, além das incríveis mesinhas tipo avião para quem viajava atrás eram atributos de sobra pra fazer qualquer boa família fazer uma viagem de férias sempre que fosse ao supermercado. Bom, isso tudo era o que EU queria ouvir, e pelo bem das finanças da casa, minha mãe sempre se fez de surda.
Para meu completo desespero, fomos olhar uma Nissan Livina. Ao chegar em um grande concessionário Nissan do Rio de Janeiro, além de sermos mal atendidos, meu pai logo percebeu um fato curioso: o pátio LOTADO de Livinas encalhadas, à espera de um otário comprador eram um sinal de que ninguém queria aqueles carros, e “se você não vê rodando, é porque ninguém tá comprando”. Nisso meu velho tinha toda razão, realmente. Graças a Deus não era pra ser.
Batido o martelo, era hora de cotar os preços e trazer a Meriva pra casa. Lembro claramente do desapontamento que senti quando minha mãe me disse que não pagaria à mais para ter as mesinhas tipo avião, só disponíveis na versão Premium, topo de linha. Hoje vejo que é porque não podíamos arcar por aquele luxo, e a versão Joy básica nos serviu melhor do que qualquer outro carro que já havíamos tido até então. Quanto a isso, Mãe, peço desculpas se te retruquei pela sua escolha, você sempre soube o que era melhor pra nós mesmo.
A Zafirinha
Quando aquele carro chegou, tudo era novidade, e o espaço interno era campeão. Depois de anos encolhido em carros pequenos, a Meriva era um país inteiro por dentro. Bancos macios e bons de suporte, materiais bons de toque e todo aquele conforto que eu nunca havia sentido, era praticamente um novo Mundo.
Ter vidros e travas elétricas pela primeira vez na vida, ao meu comando, era o mesmo que acordar milionário na cabeça de uma criança. Ir para escola e baixar o vidro fumê na frente dos amigos sentados na calçada, incrédulos com tamanha tecnologia, era o mesmo que ter um jatinho particular.

E o motor? O primeiro contato com algo maior que um mero 1.4 não poderia ser mais especial: um 1.8 Família II, com bons 114cv e 17 kgfm de torque eram de colar no banco, por menos que o visual do carro te sugira o contrário. Meu pai, sempre muito paranoico com horários, nunca permitiu que eu me atrasasse pra escola, e com ela eu nunca cheguei tarde na aula.
Subidas de Serra, com passageiros e bagagem, ela fazia com as mãos nas costas. O ar condicionado à todo vapor sempre fez dos engarrafamentos nas viagens no verão parecerem um pequeno atraso, e a grande área envidraçada fazia eu me sentir pequeno no meio daquele grande carro, mas nunca infeliz.

O porta-malas não era enorme, mas suficiente. Os plásticos do interior começavam começavam pedir arrego quando mais uma vez o martelo foi batido, e ela iria embora. Outra Meriva foi cogitada, e dessa vez completa, mas a falta do motor 1.8, que dava lugar ao propulsor 1.4, afastou minha família de qualquer negociação. Vencida pelo uso, foi trocada em outro carro, assunto pra outro texto.
Trouxe este texto à vida porque hoje me vejo muito saudoso daquele carro, minha primeira interação com qualquer conforto e luxo banais (como vidros e travas elétricas), mas também com uma sincera saudade de tudo que aquele carro tinha pra oferecer, e fazia com mestria. Nesse quesito preciso agradecer à Miriã Cabral, que muito sem querer desbloqueou essa memória afetiva automotiva que guardo com todo carinho.
É fácil entender quem não gosta da Meriva. Para muitos é um Corsa 1.8 que acabou recebendo Botânico Fontoura ao invés de aditivo, inimigo das boas linhas de design que a Zafira tinha, além de nunca ter sido um carro muito especial, mesmo com uma versão SS, hoje rara, e por ter sido a pioneira em um dos maiores fracassos modernos da GM, o câmbio automatizado Easytronic. Mas a grande verdade é que nunca saberão o que estão perdendo, e como se bem sabe, falar é fácil, ter vivência e propriedade dos fatos são outros 500.

Hoje entregue às traças e ao GNV, a Meriva é só um lampejo do grande carro que já foi, mas ainda existem bons exemplares por aí. E se assim Deus permitir comprarei uma (projeto OPC Turbo quem sabe), e me permitirei ser aquela criança boba de novo, fascinada por aquele grande carro, em todos os sentidos.



