A Primeira Viagem do Meu Carro: Parte I
Entre Roncos, Fuscas e um Citroën Careca

Desde o primeiro dia com a CNH em mãos, eu tinha uma ideia fixa na cabeça: “não importa como, mas preciso viajar com meu carro, qualquer que seja ele”. Meus 19 anos não sabiam mesmo o que viria pela frente, e tampouco o tempo que eu esperaria pra fazer isso, mas, de quilometro em quilometro, a distância foi diminuindo, e quando dei por mim o grande dia havia chegado: era hora de pegar a estrada no meu próprio carro, pela primeira vez.
De carona ou dirigindo o carro dos outros nunca contara pra mim, pois é no seu próprio carro que as suas opiniões, achismos e jeito de ser (e dirigir) passam a valer a pena. Nada contra quem o faz em outros carros, mas no seu próprio automóvel tudo tem mais sabor, intensidade, cor ou seja lá qual for o seu parâmetro. Programado com meses de antecedência, nada nesse fim de semana poderia dar errado, e não deu. Trabalho e faculdade deixados para trás e rotina meticulosamente largada em casa, meu compromisso era com a estrada, e obviamente, com meu carro e quem fosse andar nele.
O Fim do Pacato Cidadão
Feita a revisão mecânica, elétrica e até mesmo aquele trato na estética do Gol (também conhecido como lavar o carro), era hora de resolver um barulho no escapamento, que vibrava muito em alta rotação, desde que fora convertido ao cano reto, para não deixar vazio o espaço onde antes ficava o “catalisador”. Porém, algo no canto da loja acabou me desviando completamente do planejado, e mudando meu carro para algo bem diferente.

Um abafador do tipo “turbinho”, na altura dos olhos e na ponta da lábia fina do vendedor, doido pra se livrar da peça, foram o suficiente para jogar fora a aura de “pacato cidadão” que ainda existia no Gol, já manchada pelo kit stroker 1200 e pelo bico injetor de 1.6. Se já andava, precisava roncar como tal, e foi um espanto. O carrinho tranquilo voltara ao comportamento caótico de quando andou 1 semana só no coletor, disparando alarmes no mercado e levando meus pais à loucura (e destruindo minhas buchas do trambulador), ainda que um pouco mais baixo.
Mesmo assim, não havia tempo para testar o carro como se deve, e só me restaria fazer isso no dia seguinte, já na estrada mesmo. Amigos reunidos e com um bom trajeto pela frente, na madrugada do sábado o Gol partiu em comboio rumo ao destino: o evento “Serra Bugs”, em Itaipava, distrito de Petrópolis, no Rio de Janeiro.
“Na prova dura da serra, o Volkswagen vence seguramente”
Na estrada, o Gol mostrava uma valentia que eu não conhecia. Mesmo roncando alto, era possível conversar e ouvir música dentro do carro, e acompanhando o comboio de Fuscas, seguia sem nenhum susto sequer. Até que chegou a temida subida da Serra de Petrópolis, hora em que o carro seria testado de vez.
O bolinha ia cortando as curvas da serra nublada sem dificuldade, empurrando seus 900kg como se já o fizesse desde sempre, e pra falar a verdade, já fazia antes mesmo de mim. Sua antiga dona tinha uma casa em Petrópolis, e por 20 anos costumava subir a serra regularmente, ainda no seu AE-1000 de parcos 50 cavalos. Agora com um “motor novo” e retrabalhado, não lhe faltava fôlego, estabilidade e tampouco torque. Se não fossem pelos pequenos atrasos comuns de um comboio e alguns trechos mais fechados, poderia ter feito a subida inteira em quarta marcha. Morro de orgulho, não vou negar.
Os engates sempre justinhos iam levando o carro morro acima com uma vitalidade impressionante, sem atrasar ninguém e se deixar distanciar ou perder o ritmo. Pra quem ainda tinha dúvidas sobre a retífica de exatos 2 anos atrás, elas caíram junto com o abafador antigo.

Conforme íamos vencendo a subida e o trânsito abria, o Gol e a Brasília iam adentrando o frio da região serrana, determinados a chegar no evento o quanto antes. Nisso, um Omega se juntou ao comboio, criando uma das imagens mais “noventistas” possíveis, que só reforçou a minha vontade de ter um carro desses um dia.



Apesar do trajeto curto, era de fato marcante ter ido a outro lugar que não fosse o comum, o mercado, a faculdade, o banco. O ronco compassado e levemente embaralhado do CHT agora era um só na minha mente, e somado aos muitos punta-taccos, me enchiam de felicidade a cada toque no acelerador. O Gol GTS anêmico estava online e roteando, finalmente.
O Serra Bugs

Logo entramos em Itaipava, e me deparei com uma estradinha bem curta e fechada, que desembocava num largo campo, lotado de carros. Breve parada para encontrar alguns conhecidos e estacionar as viaturas, e nos demos conta de estarmos num dos maiores eventos de antigos do Estado do Rio de Janeiro, e dessa vez sem exagero algum. Agora à pé, tínhamos 2 dias de evento pela frente, e sob os cuidados dos corajosos que acamparam na friagem que é Itaipava, deixamos os carros e seguimos.

Daqui pra frente não há muito o que explicar, vou deixar que as fotos falem por si. Te vejo lá em baixo.







A Masmorra do Citroën Careca
Já completamente estourados de andar o evento inteiro e por estarmos na pista desde as 4 da manhã, conseguimos uma acomodação para passar a noite, um AirBnB a 3km da praça onde estávamos. Um verdadeiro milagre se consideramos que a cidade estava toda ocupada por conta do evento, e que o dono da acomodação antiga cancelara nossa reserva do nada, a uma semana da viagem. O motivo? Ele acabara de entrar em processo de divórcio e passaria a morar no apartamento que alugamos. Despejados pela esposa do rapaz, felizmente arranjamos outro lugar, e rápido.
Fomos recebidos pelo proprietário da nova acomodação, que gentilmente nos deu carona até a casa. Suas feições e trejeitos logo esqueci, exceto pelo fato de ter um Citroën C3 com o famigerado teto panorâmico, que mais parece uma infinita testa careca, o legítimo aeroporto de mosquito sobre rodas. Ao mencionar quaisquer outros fatos sobre sua vida, eles entraram e saíram pelos ouvidos, pois só tinha olhos para o crime que eram os paddle-shifts do C3, com a mesma pegada esportiva de uma lava-louças. Um pouco ácido demais, você diria? Sim, mas agora vem a justificativa.
Acomodados e querendo colocar as costas sobre o plano e sumir em meio ao sono, os problemas na estalagem começaram a aparecer. Famintos, descobrimos que o fogão não tinha conexão ao gás, então era meramente decorativo. Ao menos uma airfryer e uma cafeteira compunham a lista de eletrodomésticos disponíveis. Por bem decidimos não usar, e logo descobriríamos o porquê.
Com a noite fria sobre a serra, os quartos logo esfriaram e no horizonte havia apenas uma opção: um banho quente e uma cama macia para dormir. Dos 4 que compunham a trupe, dois partiram para os chuveiros dos 2 banheiros da casa, e o inevitável aconteceu: a energia não suportou dois chuveiros quentes ligados e foi abaixo. No breu e revoltados, só restava encarar o banho frio nos 14°C estimados que faziam naquela noite. Uma tarefa quase insuportável, mas o preço a se pagar por estar numa hospedaria de energia monofásica. Congelados e conformados, só nos restava dormir. Pensávamos.
Das camas ofertadas nas imagens do anúncio, uma delas era apenas um grande colchão inflável, algo normal num acampamento, mas bizarro em uma casa. Sob recusa de dormir numa cama mais molenga que suspensão de Fiat Palio, aos que se recusaram restaram o sofá e uma cama pequena que havia embaixo da principal. Nesta, sofreram os que tentaram dormir, pois para fugir do frio, tinham apenas finos guardanapos enormes, que tentavam fazer as vezes de um cobertor, mas de tão simples, pareciam de TNT. Vencidos pelo cansaço e com a luz restabelecida já tarde demais, o sono prevaleceu.
Ainda tem o segundo dia e a volta pra casa, mas isso eu te conto depois. Obrigado por ler até aqui, e fique ligado: voltaremos com um racha improvável e as impressões finais sobre o Gol e a Viagem. Até lá!



