Acabou o Açúcar
Acabou o Açúcar

Acabou o Açúcar
Realmente parei de contar a quantos dias estou em Quarentena, pois é um esforço inútil. Qualquer coisa assisto a retrospectiva da TV no fim do ano, garanto que será bem extensa.
Mesmo em casa, a mente não aquieta. Pressões, roteiros e aulas por escrever, cobranças travestidas de convites e ansiedade formam o coquetel perfeito para a perturbação mental, e eu ali, no meio de tudo aquilo, precisando urgentemente respirar.
Minha mãe, e seu dom quase místico de perceber quando eu estou explodindo silenciosamente, bate na porta do quarto e diz: “Acabou o açúcar, e eu já fui na rua hoje. Você bem que podia ir comprar”. Com certeza um pedido incomum, vindo de uma pessoa que não gosta que façam compras por ela. Não recusei, fechei o computador e me pus para fora de casa.
Nos primeiros metros novamente dentro do Gol, tudo parecia estranho. Toda a experiência vívida da última escapada não existia, era como se tivesse passado 15 anos no estrangeiro e não aprendido nada. Porém, já estava dentro do carro e com uma missão à cumprir, voltar para casa não era mais uma opção. Ainda muito estressado e sem vontade alguma de entrar no enorme e famoso supermercado fluminense, decido esticar um pouco mais a saída.
As ruas vazias eram um claro convite para procurar por todos os cavalos de potência perdidos pelo carro em seus 25 anos de vida, então assim o fiz. Aos poucos o jeito dócil e vagaroso do Gol foi voltando às minhas memórias, algo que é recompensador, mas nem de longe o que eu procurava.
Já decidido que aquele passeio esticado deveria acabar, escolho por fazer o retorno numa larga avenida, afim de achar o caminho de volta para o supermercado. Nisso, eu preciso colocar um adendo: todos que saem de casa neste período de quarentena, mesmo que de carro devem usar máscara. Eu ODEIO ter de usá-la, porque não respiro direito, então tenho me atido a ficar em casa, que é o certo a se fazer.
Parado no sinal vejo que a alça para o retorno, uma curva à esquerda, está vazia. A princípio isso não era nenhuma informação interessante, mas logo ao sair dali, meu velho instinto arruaceiro se acionou. Segunda marcha, motor cheio, entro com tudo, vendo a frente inclinar e os Pirelli Cinturatto P1 acharem aderência onde eu podia jurar que não havia. Aqueles 3 segundos duraram 20 anos na minha cabeça, era como se eu estivesse em câmera lenta.
Com o carro já em linha reta e em terceira marcha, a sensação é boa. Você sabe que está errado, e que as pessoas do outro lado da rua te olharam estranho, mas de certa forma você se sente vivo. De repente o ar já não me faltava mais, o sangue pulsava de maneira intensa e os problemas crônicos do Gol haviam ficado para trás. A alma parecia mais leve do que nunca.
Quando dei por mim, já estava com o açúcar em casa e sentado em frente ao computador escrevendo este texto. São pequenos momentos como esse que fazem valer cada centavo gasto em uma carteira de motorista.
Mas se você for esperto o suficiente, não vai repetir o que eu fiz. Fique em casa.



