Amor Metal

Mais do que fios e aço, é desejo de completar-se


Fazia tempo que não falava mais sobre carros, talvez pelo pouco que me sobra para minha segunda paixão depois do volante: escrever para meus amigos e leitores. Num dos poucos intervalos do trabalho, me vi conversando com o velho amigo Flávio Domingos sobre antigas paixões automotivas.

É o tipo de conversa que começa tímida, mas logo desponta como um foguete: carros que sempre sonhamos, e levaríamos para toda a vida, se ela assim permitir. Logo lembrei da minha antiga dívida pessoal: o Fuscão 1500, “meu primeiro carro”, que nunca aconteceu de verdade. Hoje mais velho e sabido, conheço e desejo coisa melhor, mas o sonho do Fuscão permanece.

Enquanto viajava nas lembranças da época em que buscava um para chamar de meu, Flávio me interrompe para lembrar da sua paixão: o Mitsubishi Pajero, da primeira geração que veio ao Brasil. Ao mandar uma foto da primeira vez em que entrou e dirigiu uma, lembrei-me da felicidade dele no dia em que me mandara o registro, sem a menor questão de esconder a alegria em tê-la dirigido, ainda que pouco.

Pouco importava o contexto, a felicidade tinha a forma e o tamanho do velho SUV japonês. (Flávio Domingos/Arquivo Pessoal)

Conclui que nenhum de nós dois tínhamos, ainda, realizado o sonho de ter o carro de que sempre sonhamos, e que tudo sabemos. Detalhes e minúcias mil, da cavalaria ao código do motor, mas que não valem muito sem o carro na garagem de casa, guardado por si e com o próprio nome no documento. Comento com ele que, apesar de amar meu próprio carro, só me sentira feliz por completo a bordo do Fusca. Nisso, Flávio completou o raciocínio dizendo o seguinte:

“Não devemos desistir disso [do sonho do carro desejado], meu amigo. [O carro] vai ser nossa escapatória da armagura inevitável que é essa realidade”.

Sempre achei que a sensação de amar um carro que sempre se quis ter era meramente relativa, afinal aprendi a amar um carro que me escolheu, e que se não fosse por isso, talvez não existisse mais. Mas, novamente, eu estava errado, e isso não é relativo.

Quando o destino é quem manda

Duda e Trovão: uma paixão marcada na pele e também no coração (Maria Eduarda Stancione/Arquivo Pessoal)

Tiro como bom exemplo disso o caso de amor entre um Opala Standard 1979, chamado Trovão Azul, e sua dona, Maria Eduarda Stancione, ou simplesmente, Duda. Ainda que saiba de cor e salteado toda a história por trás desse carro, e seus desdobramentos, desde o trágico à sua sobrevida, vejo que esse elo é realmente muito forte.

Mesmo com todas as adversidades, achismos e desdéns alheios, os dois permanecem unidos, como algo forjado pelo destino. Embora seja para mim muito fácil dizer, e de onde estou sentado talvez até pareça um afago à dona, é a mais pura e clara sinceridade. Talvez uma sensação de pertencimento exista entre a dona e seu carro dos sonhos, algo que ainda não tive o prazer de sentir por mim mesmo.

Hoje sei que tal pertencimento existe. Seja a Duda com seu Opala, ou o Flávio que sonha com a Pajero, ou até mesmo eu, que sonho com os 2 Fiats menos queridos do mundo (Uno 1.5R e Tempra Ouro Cupê), isso fala mais com o coração do que com a posse. Diria até que é motivação para correr atrás dos meus sonhos.

Um sonho de cada vez, mas chegaremos lá (Gustavo Brasil/Reprodução)

Um dia minha garagem sairá da alma e virá para minha casa mesmo, tenho fé nisso.

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