Audi A3 Sedan e os Pequenos Grandes Poderes
O pecado tem cor, Performance (Black) e preço

Juro para você que não farei uma crônica ao estilo “clarksoniano”. Ainda que seja um jornalista automotivo, não sou britânico e nunca soquei um produtor a troco de nada. No texto da vez, uma oportunidade de ouro que me apareceu, e tudo ao seu redor: um Audi A3 Sedan Performance Black, de tanque cheio e “meu” por três dias. Ou quase isso.
Por conta de uma ação promovida pela Audi do Brasil, a marca retornou ao Rio de Janeiro, após considerável hiato com os jornalistas. Nisso, surge o convite para avaliar o primeiro modelo da ação: um A3 Sedan, na configuração topo de linha, Performance Black. À Audi do Brasil, e todos os envolvidos, fica meu agradecimento.

O modelo, devo dizer, é de um visual para lá de acertado. Consegue ser chique e, ao mesmo tempo, discreto, talvez por cortesia da cor Verde Distrito Metálico, não muito vibrante. Compacto e bem-acabado, agrada aos olhos, toque e aos sentidos. Meu primeiro teste longo num Audi. Uau. Valeu a pena comprar aquela Quatro Rodas em janeiro de 2002, decidir pelo jornalismo anos depois, a faculdade e… desculpe. Divaguei.
Senhor Doutor Professor Jornalista Automotivo
De uma suntuosa e moderna concessionária saiu o sedã verde, numa ensolarada manhã carioca. Logo ao entrar na avenida, o A3 me avisa que esse não é mais um dos meus testes “comuns”: o sistema Audi Sense, com frenagem de emergência, se assusta com uma moto que cruzara o caminho, ainda que com enorme distância, e me cola no banco, apertando o cinto do motorista com violência e freando com tudo. “Ok, começamos errado”, pensei.

Menos de 1 km depois, no final da Av. Princesa Isabel, em Copacabana, já eramos grandes amigos. Impressões rolando, e enquanto tento me achar no ambiente novo, percebo o quão “em casa” o sedã parece na Zona Sul. Em meio a táxis e veículos comuns, o Audi não se destacava, ao passo de que não se esforçava muito para pertencer àquele lugar. Asfalto liso, a vista e as luxuosas moradas à beira-mar casavam com o teste. Nem mesmo a blitz na Av. Niemeyer, que parou o carro à minha frente, parecia fora de lugar. Um olhar curioso dos policiais sobre o A3 de passagem, e segui meu caminho.
Já bem longe dali, e tendo passado por Barra da Tijuca e Recreio, a postura ao redor do modelo mudou. Sem paisagens bonitas e demais carros tão ou mais caros por perto, o sedã verde virou o centro das atenções. O asfalto castigado passou a exigir mais dos meus reflexos, e a infinidade de SUVs e modelos mais antigos me faziam um extraterrestre. Onde quer que fosse, era analisado de cima a baixo, a fim de sanar a dúvida: “quem dirigia aquele carro tão diferente?”
Isso pode parecer exagero (e até mentira), mas acredite, eu não iria tão longe num texto para mentir para você. Daria muito trabalho.
“Deus me livre e guarde de você”

O que foi dito acima também se aplica aqui. Assim, prepare-se para imaginar uma cena ridícula, mas verídica. Numa noite voltando para casa, parado no trânsito, já na segunda metade do teste, reparo num velho carro prata, do outro lado da avenida. Confesso não lembrar se era um VW Voyage ou mesmo um Ford Escort, apenas que havia uma testeira, com os dizeres “Deus é Fiel” no para-brisa.
No volante, um homem, acredito que por volta dos seus 40 anos, de olhar bastante esquisito, fitava intensamente o sedã, e sem o menor pudor, passava a língua entre os lábios, tal como uma pessoa faminta em um desenho animado. Eu não conseguiria inventar isso (e quero acreditar que essa imensa esquisitice não era destinada a mim), portanto pule a hipótese da mentira. Perturbado e um tanto chocado, assim que o sinal ficou verde, abri o 2.0 Turbo na avenida e sumi. Eu hein.
Esporte fino

Apesar de tudo, durante o teste, o A3 não demorou muito a mostrar sua verdadeira face. É um modelo afiado, seja na resposta do conjunto motor/transmissão ou no comportamento. Falando em dinâmica, é um sedã como poucos que já tive a chance de andar. O chassi entra e sai de curvas sem “esparramar”, algo mais que normal em carros com tração dianteira. Havia uma segurança digna de sistema Quattro (tração integral), eu realmente gostei do que vi.
É um conjunto que, se provocado no modo Dynamic (esportivo), não foge da briga. O câmbio automático S-Tronic entrega trocas rápidas e sutis, e os 204 cv, embora não pareçam muita coisa no papel, puxam forte o carrão serra acima. Cortesia dos bons 32,6 kgfm de torque, creio eu. É gostoso entrar um pouco mais forte nas curvas e ver o sedã permanecer firme, com quase nenhuma rolagem de carroceria.

É importante citar que a versão Performance Black, topo de linha, adiciona mais que mera perfumaria ao modelo. Além do visual mais esportivo, que ganha ares de S3, como bem lembrou o colega Yuri Ravitz, o A3 recebe bancos esportivos, que seguram bem nas curvas. O volante tem boa empunhadura, e é seu amigo, seja em alta ou manobrando na cidade. Além disso, muito me agrada terem botões físicos, ainda mais em uma moda moderna de telas, telas e mais telas.
Queria não ter que recorrer ao velho e cansado clichê da profissão, como dizer que o modelo se porta “como se estivesse sobre trilhos”, e não vou. O A3 é estável, rápido e dá show quando provocado, algo bem raro no já miúdo mercado de sedãs por aqui. Na verdade, para não perder a credibilidade na praça, vou me permitir ao clichê de dizer que “é um carro que veste o motorista”. Pronto, continuo jornalista automotivo.
Conclusão: A3 Sedan Performance Black é sedã-antisedã

É curioso como o A3 Sedan te faz esquecer que você está num sedã médio, talvez pela condução tão justinha que mais lembra um hot hatch, ou talvez seja o tamanho mesmo. Ele não é tão grande, e convenhamos, sedã não é a primeira coisa que você pensa ao ouvir “Audi A3″. Assim, posso dizer que o modelo que andei é um hatch nervoso com um generoso porta-malas, mas com um visual que prova que você vê mesmo um sedã, e não está louco.
Ok, o leitor com mais tempo de casa aqui no Medium ou mesmo no meu Twitter sabe que gosto de sedãs e os defendo com unhas e dentes, quando merecedores disso. O A3, apesar de sedã, cumpre a função de três volumes quase que por tabela, uma vez que seu comportamento não se reflete aos moldes de um sedã médio tradicional, por exemplo. Na versão avaliada, tem visual esportivo e comportamento que acompanha o visual, mesmo não sendo um esportivo nato como os S3 e RS3 (este último disponível no Brasil), por exemplo.
Assim como falei em minha avaliação pelo Jornal do Carro/Estadão, o A3 Sedan Performance Black vende luxo e performance em um traje compacto, e não busca o público tradicional acostumado a um A5 ou A8, por exemplo. É o “jovem” que quer esportividade, mas não muita, e tem família e bagagens para carregar. E que serve muito bem a quem não tem essa necessidade, deixando saudade e gostinho de quero mais.
Pena custar R$ 344.990, bem mais do que os 20 reais que eu tinha disponíveis no bolso durante todo o teste.



