Brasília: Rode e Ame
A forma em busca da função

Existem certas situações na vida onde não se pode pensar muito: a oportunidade aparece, você abraça ou não, e torce pelo melhor. Há quem diga que isso é pura e simplesmente normal, mas quando o assunto é carro, é bem mais do que isso.
Não é a primeira vez que falo da Brasília 1976 do Enio. Dona de um carisma irretocável e capaz de arrancar sorrisos de qualquer um que passe por ela, seria até perda de tempo evocar essas qualidades aqui, pois já existem outros 2 textos nesse site sobre ela, em situações bem distintas, mas com uma diferença: foram episódios não muito tranquilos.
Desta vez retomo o causo por uma razão específica: uma viagem de última hora. Convite feito apenas algumas horas antes de partir, uma ida à São Paulo era algo pra mim irrecusável, pois precisava de “férias”, veria meus amigos e resolveria antigas pendências, ainda que nem todas. O caminho era velho conhecido de todos nós, a Via Dutra, e o meio, a Brasília.
A Ida

Sábado a tarde, devidamente abastecida de gasolina, malas e a vontade de sair do Rio, a Brasília apontou na Via Dutra como quem era velha conhecida dali, e era mesmo. Já tendo viajado mais de 20 mil quilômetros só com o atual proprietário, entre repetidas idas à São Paulo e Curitiba, era certamente algo bastante familiar para a velha senhora.
Pouca bagagem e muita vontade de chegar era o que regia a viagem. O tempo de sol parcialmente encoberto era o refresco do tempo quente do Rio, e com a inescapável chuva de São Paulo à frente, o pequeno Volkswagen seguia em frente.
Milhas e milhas Estado adentro, a sensação era familiar pra mim, que já havia andado incontáveis vezes naquele carro, mas nunca ido a São Paulo nele. Era nítida a sensação de que o carro havia se tornado apenas um meio, e nada além disso. Antes que você (ou o dono) entrem em parafuso, me permita explicar.
Quando se tem um carro antigo, existe o temor que, pela idade ou vida útil do conjunto, grandes trajetos como esse sejam apreensivos. Querendo ou não, estamos falando de mais de 400 quilômetros, algo que é cansativo até em um carro zero km, ainda mais em um carro que só fora novo em 1976.

Mas para o desespero dos críticos, na Brasília nada desse tipo se podia esperar. Devidamente revisada, tudo que se via nela eram as falhas naturais do projeto, como o ar frio da Dutra que escapava pelo vão da maçaneta interna. Algo inaceitável em um Bentley, por exemplo.
100, 110 por hora, e a caixinha azul caiçara cortava a estrada confiante, lembrando a todos que passavam (e a nós mesmos) que acima de tudo ela é um carro familiar, feito pra isso. Ainda mais se levar em conta uma época onde nem sequer existia guincho na estrada.

Tamanha a paz que reinava, dentro e fora do carro, que num piscar de olhos, estávamos em São Paulo, e se não fosse pela lombar cansada e pela sede, talvez até fossemos mais longe. Entregues ao destino e com uma breve passada um por um Track Night pra lá de interessante (valeu, Gian), era hora de descansar.

O GPC em São Paulo
Pouco se pode fazer em 2 dias de viagem, mas se você estiver em São Paulo e faminto, a Liberdade é uma boa ideia. Se a sua ideia de alimentação for a mais puxada pra comida étnica possível, é um bom lugar para começar.

Apesar da imensa concentração de discípulos de Belle Belinha por m², basta esquivar-se deles e você vai achar um bom lugar pra comer. Mas vá cedo, é um inferno para achar vaga de estacionamento.
Mas o foco do texto em si não é esse, e sim o carro. Voltemos a ele.
Mesmo chamando a atenção por onde passava, a Brasília por sua vez tem o dom de fazer o tempo ao redor dela passar mais devagar. É estranho dizer isso do ponto de vista do passageiro e não do motorista, mas é deste banco que se pode entender melhor o que se passa numa viagem, e eu estou disposto a defender essa ideia.
De fato é inegável o poder do pequeno-médio Volkswagen. Seja salvando nosso amigo de empurrar o próprio carro 2km morro acima, ou servindo de descanso visual para o terrível e cinza ambiente paulistano, é mesmo surpreendente o que um carro pode fazer para os que desfrutam dele.
E digo isso não pelo Enio, a quem conheço a poucos anos mas parece que são duas décadas, mas pelo estranho poder que um carro antigo tem de te desconectar do mundo e mergulhar em outro, completamente diferente e acima de tudo, familiar, aconchegante.
Mesmo na noite da Av.Europa, cercados de todo tipo de carro mexido e o estranho conceito do paulistano sobre o uso de cadeiras de praia, a Brasília era um conforto no meio do marasmo de pops and bangs. Ao tentar replicar a tradicional “lixada” na hora de deixar a avenida, o ronco compassado do boxer 1600 era um show à parte, mesmo suando para chegar aos 60 por hora. Velha senhora sim, mas que sabe impressionar.
A Volta

Com a agenda contra nós e precisando dar fim à viagem, ainda que com muito deixado “pra próxima”, a Brasília aponta na Dutra mais uma vez, em pleno feriado de proclamação da República, rumo à Guanabara. Depois de anos reclamando de viagens longas no hatch médio de mais de 40 anos, descubro que podia reclinar o banco um pouco, e conseguiria repor um pouco do sono perdido por acordar 5 da manhã. Isso mudou minha vida (e a da minha lombar).
Ritmo tão ou mais tranquilo do que a ida, a viagem seguiu sem sustos, provando que toda e qualquer preocupação de antes quanto à mecânica caíra por terra. A única preocupação durante os mais de 800 km do fim de semana era se o cartão de crédito responsável pelos pedágios, já prestes a se partir ao meio, resistiria a tantas maquininhas na ida e volta.

Com hora pra chegar e pouco tempo pra perder no famoso Grupo Rodo-Alimentício Augusto Liberato (caô), a Brasília cumpriu seu papel, disparando sorrisos aos que passavam e eram ultrapassados pelo pequeno Volks, e ainda se encarregou de entregar lindas mensagens de dedo médio em riste a apoiadores do atual Presidente da República, que acampavam do outro lado da rodovia. Um veículo multiuso mesmo.
Cumpridos os mais de 400km até o Rio em exatas 5h30, mais rápido do que a ida, havia em todos nós a certeza de que não só era a melhor performance da Brasília em anos, como também os quilômetros a fazem bem. Sem ruídos ou queixas, o hatch azul caiçara provou mais uma vez que leva à sério o slogan de seu antecessor, o Fusca: “Na dura prova da serra, o Volkswagen vence seguramente”.
Mal podemos esperar para lançá-la a voos cada vez maiores, e cumprir o verdadeiro propósito de um carro tão querido: fazer memórias com ela.



