Câmbio, desligo.
Câmbio, desligo.

Câmbio, desligo.
Numa Terça, só a segunda.
De todos os males automotivos, a falta de comunicação entre o motorista e o carro é o maior. Não sentir muito bem o que o volante (sem assistência) tem pra te dizer sobre o asfalto, uma suspensão que range, uma injeção que afoga quando fria, o problema que você imaginar. Não existe nada mais perverso do que o um imprevisto que aparece e te deixa na pista, literalmente.
Tudo aquilo que já falamos textos e textos atrás reaparece com toda a força: a impotência diante do fato. Mas antes disso vamos a ele, que trouxe a mim e a você pra cá.
Transmissão de Pensamento
Numa dessas noites frias de outono (nossa, que poético), resolvo pregar o bom samaritano e deixar uns parentes em casa, afinal é madrugada e o carro já está na rua, algo que pra mim é bastante raro. Trôpego como sempre, a injeção jurássica vai movendo o carrinho e seus ocupantes para a primeira de suas paradas, afim de que o pequeno trajeto fosse tempo o suficiente para que ele esquentasse e fizesse uso de cada uma das mil e duzentas cilindradas cúbicas que o retificado CHT agora tinha.
Isto feito, ainda faltava uma pessoa a ser entregue. Já quente e sem o escape, não liberar 60hp de puro ódio aditivado na noite seria um desperdício de tempo e gasolina, então você já imagina o que veio por aí.
Parente devidamente entregue, e possivelmente arrependido de ter aceitado a carona e uma nova surdez por tabela, é finalmente hora de voltar pra casa. O trecho de volta é nada mais que uma enorme avenida, completamente deserta, e tudo que existe nela são você e seu carrinho anunciando o fim do mundo, exclusivamente pelo coletor.
A mil por hora ou a 90 em vias que não foram feitas pra isso, não importava mais. Aquela mescla de barulho completamente embaralhado, com estouros ainda tímidos do “escape”, ecoavam forte pela avenida. O rádio ligado tocava alguma coisa, mas eu não fazia ideia do quê, pois tudo que se ouvia eram os pneus e o motor, gritando como nunca antes.
Um passo à frente, dois pra trás
Já cansado daquele frenesi das ruas vazias e da zoeira em que aquela volta pra casa havia se tornado, finalmente tomo as vias de casa. Parado no único sinal vermelho que havia em todo o trajeto, espero pacientemente a sua boa vontade para seguir pra casa. Sinal demorado, não via a hora de rasgar as ruas do bairro pela última vez antes de finalmente dormir, pois estava acordado desde as 6 da manhã.
Quando o sinal finalmente abre, engato a primeira e… nada. Chamo mais uma vez, achando se tratar de uma brincadeira de mal gosto do carro, mas a verdade não demorou a chegar: a primeira marcha não entrava mais. Sem muito tempo pra pensar em alguma coisa, um carro surge no sinal atrás de mim, e começa a buzinar, em plena 1 da manhã. Sem nada a fazer, engato a segunda e rezo pra que o Gol ande, algo que prontamente o fez, para meu completo espanto.
Achando que aquilo era um mal de uma marcha rebelde depois de 26 anos de uso, aperto o acelerador e chamo pela terceira, que se fez de surda. Já muito frustrado, só me restava a quarta nos metros finais, que felizmente eram completamente solitários. Na esquina de casa, resolvo tentar de novo sem acreditar no que tinha acontecido, mas a pá de cal já havia sido dada: perdi a primeira e terceira marchas, completamente do nada.
Derrotado, engato a segunda mais uma vez e consigo chegar em casa, pra dali não sair mais. Não tive muito tempo para processar a frustração de “perder o câmbio”, pois assim que dei por mim já estava na cama, emocionalmente moído. Na manhã seguinte, a realidade caiu como uma pedra: o carro quebrou.
O que se julgava ser apenas um trambulador desobediente mostrou-se muito pior: as marchas haviam “encavalado”. Ainda sem solução, busco resolver o problema o quanto antes, afinal só de pensar no meu carro imóvel na garagem, como um bibelô empoeirado sobre a prateleira da casa da sua tia, os nervos já me fervem.
Atualizações quando eu finalmente consertar isso.



