Decadence avec élégance
Decadence avec élégance

Decadence avec élégance
Nem tudo que reluz é bronze
Crescer vendo Top Gear foi um baita privilégio. Meu inglês era até ok, e a paixão por carros tornava tudo mais fácil de entender, então logo me vi bastante fiel às palavras de Clarkson, May e Hammond.
Cito eles pois em um episódio específico do programa, Richard Hammond testava seus dois sonhos de infância: uma Ferrari F40 e um Porsche 959, os primeiros carros de rua a cruzarem a marca dos 200 km/h. Neste mesmo episódio, ele conclui dizendo que abriria uma exceção à frase “Never Meet Your Heroes” (nunca conheça seus ídolos), pois ao contrário do comum, ele não havia se decepcionado em conhecer os carros de seus sonhos.
Voltando à realidade, hoje tive a oportunidade de conhecer um ídolo de infância. Um carro em que ouço desde pequeno meu pai declamar eternas juras de amor, muito saudoso da época em que teve o prazer de guiar à trabalho as versões cupê e quatro portas, 1.8 e 2.0, manuais e automáticas: o Volkswagen Santana.

Um grande amigo me cedeu por alguns minutos o seu carro, um Santana CD 1985, na belíssima cor Marrom Carajás. Não nego que esperava esse momento a algum tempo, afinal era tudo o que as propagandas diziam, e partia do princípio de que eu ADORO esse tipo de carro.
Já havia andado como passageiro e sabia de todo o potencial do conforto que ele proporcionava. Mas precisava ver para crer, do alto do único banco que importa: o do motorista.
Meu amigo gentilmente me entregou o carro já ligado e antes que desse por mim já havia entrado em modo de análise. O enorme volante já anunciava: “isso não é um carro pequeno, adeque-se agora”, mas nada impossível de conviver. O carro partiu e a maciez do rodar era evidente. Carburado como tudo que vem dos anos 80, o AP 1800 vibrava avisando que não estávamos mais em território de baixa potência.
Na estrada de asfalto lunar onde acontecia o teste, a suspensão fazia o seu melhor em absorver as imperfeições, e a direção, apesar de imensa, era relativamente leve e até responsiva, menos “abobado” do que o normal de uma assistência hidráulica. O torque era satisfatório e presente em baixas rotações, algo que não se pode negar em um carro de quatro metros e meio. Os engates, como tem todo Volks que se preze, eram precisos e fáceis, mesmo com o peso da idade.
O Porém
No retorno ao ponto de partida, porém, o martelo estava batido: não era o que eu esperava. Os anos de histórias e suposições haviam criado em mim a imagem de um carro de aura palaciana, um Rolls-Royce de baixo orçamento, e pelo menos neste carro, não é bem a verdade que habita. Em respeito ao proprietário e todas as idas e vindas com o carro (das quais sei muito bem), não direi que seu carro era ruim em quaisquer maneiras, até porque estaria mentindo. O problema sou eu mesmo.
O retrospecto bateu forte. Um mix de lembranças, do desejo de ter um carro mais potente e até mesmo da ideia (completamente absurda) de trocar meu carro nesse mesmo em avaliação. Apesar da estabilidade, da potência, e porque não, beleza marcante da carroceria, me vi diante da conclusão óbvia que aquele episódio de Top Gear escondera de mim: não conheça seus ídolos, você pode se decepcionar.
Todos sabemos que carro é puramente instintivo: ou você gosta ou não, e o meio termo só existe se você o tem para si, seja em posse ou no documento. Mas isso não me deixa dúvidas: os predicados do Santana não me cabem, ao menos não agora.
Mas não se enganem, a ergonomia e conforto desse carro são inigualáveis no seguimento. Pode procurar coisa melhor, eu espero. Se você achar, me diga nas minhas redes, em @TheRTLima.
(Sr. proprietário: Talvez eu precise de mais tempo e um asfalto liso para me provar do contrário. Favor entrar em contato).



