Fiat Fastback e os 1000 km de redenção

Prove seu valor ou morra tentando: rodamos mais de 1000 km com o Fiat Fastback Impetus Hybrid, que se mostrou mais revelador do que nunca

Fiat Fastback Impetus Hybrid (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Vou ser honesto logo de início: o visual do Fastback nunca me agradou. Desde a época do lançamento, quando chamamos ele no PodCarro de “Strada Souza Ramos”, em referência ao visual de picape “transformada” que o SUV da Fiat carrega, não tinha motivos para separar-lhe elogios. É claro, julgar um automóvel essencialmente por sua forma é um erro que nenhum jornalista deve cometer, e não sou eu quem vai te encorajar a isso.

O melhor remédio para aparar as arestas que nos restavam seria uma avaliação longa, do jeito que tem que ser. Destinado a ir ao Salão do Automóvel e aplacar o vazio causado pelo recente passaralho na redação do Jornal do Carro, onde trabalhei nos últimos anos, coube ao Fastback ser minha última avaliação pelo periódico. Despedidas são difíceis, mas cabe capricharmos no texto.

Fiat Fastback ensina ao Pulse como se faz um SUV familiar

Em breve parada no “Grupo Rodo-Alimentício Augusto Liberato” (GRAAL), o intrépido Pedro Santana registra a viatura cedida pela Stellantis (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Às cinco da manhã da sexta-feira da Consciência Negra, o SUV cupê rumava do Rio à São Paulo, com 400 km pela frente, um porta-malas com muita bagagem e algo a provar: ser algo maior do que um Fiat Pulse esticado. De cara, o painel entrega as mesmas linhas e contornos do irmão menor, separados por um detalhe acolchoado. Some também o freio de mão mecânico, dando lugar ao botão do elétrico, junto de um acabamento em black piano.

Durante o trajeto, muitos sinais para continuar seguindo (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Com o teto panorâmico descoberto, a cabine demasiadamente preta ganhava um pouco de luz, iluminando o painel digital e seus gráficos da tecnologia Hybrid. Na versão Impetus, avaliada, o painel tem tela de… leia a avaliação séria no link ali em cima. Isto é uma crônica, e é das sensações que você deve saber.

O SUV agrada pela docilidade, o dom de te fazer esquecer sua eterna batalha contra o VW Nivus, GM Tracker e o recém-chegado Honda WR-V. É bem-acabado, talvez menos que o Peugeot 2008, mas ainda um bom lugar de se estar. É direto ao que se propõe: tornar a convivência agradável, sem sobrar ou faltar. O simples também é bom, acredite.

Pequenos pecados de cor Branco Banchisa

Os detalhes escurecidos da versão Impetus caem bem no Branco Banchisa do Fastback (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Na Dutra, seu único calo era a falta de um ACC (controle de cruzeiro adaptativo), que consiga fazer o modelo variar a velocidade do piloto automático conforme o veículo da frente. Assim, foi constante o armar e desarmar do sistema, ao menor sinal de radares e motoristas mais lentos. Algo bem cansativo, ainda mais com rivais mais baratos com essa tecnologia.

Médias no último reabastecimento, já de volta ao Rio. Se você pensa em usar etanol na estrada, repense. (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Já em São Paulo, fico contente ao ver que o T200 e seus 125 cv com gasolina faziam bem ao modelo, com 14,5 km/l de média rodoviária. Na volta eu descobriria que estava lendo os dados errados, e, na verdade, foram 13,8 km/l. Nada mal. Ao primeiro sinal de trânsito e com mormaço da capital nos alcançando, o ar-condicionado foi ligado, e o consumo virou item de segunda linha.

Como um intrínseco carioca, dirigir em São Paulo sempre me trouxe apreensão, embora já tenha feito isso outras vezes. De novo, o Fastback me trouxe de volta à realidade, sendo adequado e ágil mesmo no caótico trânsito paulista, levando a mim, minha namorada e mais dois amigos em relativo conforto.

Ao jornalista, com carinho

Um click difícil de um Porsche 911 GT3 Cup, em curtíssima passagem em Interlagos. Sempre gostei de fotografar, mas nunca fui de falar disso (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Ao passo que cumpria as agendas em São Paulo, procurava manter a mente alinhada com o passeio e o teste, fora do turbilhão profissional que havia acabado de passar. Nenhum pensamento parecia em seu devido lugar, e confesso que se não fossem as palavras amigas e insistentes dos que viajavam comigo, talvez este texto nem saísse da mente. Graças a eles e uma colher de chá de amor ao jornalismo, achei de bom-tom escutar às impressões que o SUV passou durante sua semana comigo.

Forçando um pouco a barra, consigo ver forte resiliência na proposta do Fastback. Dos produtos da Fiat, não é o mais bonito, parece fora de lugar quando comparado à concorrência e “sofreu” com críticas em seu lançamento. Entretanto, a aposta da Fiat deu certo, resultando em vendas acumuladas maiores que as do Pulse em 2025, segundo a Fenabrave. Não é por que meia dúzia critica seu visual que se trata de um carro de todo ruim.

Fale o que quiser, mas em matéria de espaço, o Fastback dá aula (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Para entender o real valor do automóvel, é preciso conviver com ele. Jornalistas passam alguns dias avaliando um modelo com essa proposta, e traduzem seus pensamentos e impressões para o público, que faz seu julgamento. Em um momento em que me questionava se era mais ou menos profissional, o SUV da Fiat me lembrou que sim, eu ainda era comunicador, e que fazia sentido sentir-se fora da curva, desde que acreditasse no potencial das coisas darem certo. E acredito.

Conclusão

Um agradecimento a todos que fizerem este texto acontecer: minha amada, meus amigos e a Fiat Automóveis do Brasil (Rodrigo Tavares/PodCarro)

Um tanque de gasolina e um e meio de etanol depois, voltei ao Rio e devolvi o carro à Stellantis, ciente de que daquele dia em diante as coisas não seriam mais como antes. Mesmo com seus pecados, o Fastback não se vende como a sétima maravilha do mundo (até porque seus pormenores o impediriam), e apresenta uma honestidade única. Um enorme e cavernoso porta-malas, um motor turbo forte o suficiente para carregar a família, e um visual diferente para não ser igual a todo mundo.

É necessário o exercício de se ir além da imagem, algo tão importante num mundo raso e superficial de hoje em dia. Qualidades que só podem ser avaliadas diante de um teste longo, algo que esses mais de 1000 km em três dias demonstraram. Assim, o SUV demonstra o porquê vende tanto: tem seu valor, mas que precisa ser provado.

Mas que falta um ACC, isso falta.

Feliz Natal e próspero Ano Novo! Nos vemos em 2026, com algumas novidades a caminho, não perca!

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