Mais autódromos, por favor!
Mais autódromos, por favor!

Mais autódromos, por favor!
Como a falta de atenção aos autódromos no Brasil prejudica — e muito — a vida do automobilista
“As corridas de automóvel começaram a partir do momento em que se construiu o segundo carro”. Com o frenesi sobre a nova invenção do século, e com duas pessoas loucas em seus automóveis, nasceram as corridas, com o genuíno intuito de determinar quem era o mais veloz no comando da nova máquina, onde se fazia surgir um novo conceito em velocidade. Ainda no início do século XX, mais precisamente em 1908, se deu a primeira corrida de automóveis no Brasil, ocorrida em São Paulo.
Com a popularização das corridas de rua no Rio de Janeiro e em São Paulo, desde às amadoras até as categoria profissionais, como ralis de regularidade e os grandes prêmios que antecederam a fórmula 1, surgiu a necessidade de se praticarem as corridas, agora com status de esporte, em circuitos fechados. Era o início dos autódromos no Brasil.
“Correr na pista é coisa de rico”
Com o surgimento dos autódromo de Interlagos, em 1940, o Brasil migrou suas corridas da rua para as pistas fechadas, recebendo esportes como fórmula 1 e categorias de turismo nacional, que logo ganharam apelo popular. Tudo isso num ambiente desafiador e ao mesmo tempo seguro, com curvas bem definidas e pensadas para extrair o máximo de cada carro, afim de evocar o fervor da competição.

Motivado pela corrida, o entusiasta comum nunca mais olha da mesma forma para o seu carro de rua. Lhe vem à cabeça mil formas de se preparar o motor, suspensão, rodas e o que mais der na telha, desde que fique parecido com o carro de corrida da equipe que ele tanto admira. Nisso ele se vê na “obrigação” de se mostrar o melhor dos pilotos no pior lugar possível para isso: a via pública.
O resto você já pode imaginar: nosso amigo automobilista se enche de confiança e de falta de perícia, e pode provocar uma fatalidade (sim, eu estou falando com você que faz racha na avenida de noite, você sabe que está errado e isso vai acabar mal).
Mas aí você me pergunta: se a rua é o pior lugar para se correr, porque ele não foi direto para o autódromo? Não é tão simples assim. A pista não é um ambiente tão democrático assim, ou pelo menos nem sempre foi. Como o automobilismo sempre foi um esporte de nicho e custo bem proibitivo, não é algo acessível à grande maioria dos apaixonados por carro, e por isso as pistas acabam por afastar potenciais corredores, que imaginam que só pode correr quem tem uma equipe e investimento.
Somado a isso, outros problemas vêm à galope, tais como o abandono das poucas que existem no país, o que provoca desinteresse por parte do Estado em manter tais estruturas, cuja manutenção não é barata. Isso, somado ao ideal de que a cultura do automobilismo não é para todos, traz consequências também ao futuro do esporte no país.
Track Days — seja piloto por um dia (e longe das ruas)
É sabido que o piloto profissional é capaz de dar voltas na pista no menor tempo possível, fazer pole positions e ganhar troféus. Mas ele também aprende MUITO sobre o domínio do carro, como ele se comporta em alta velocidade e o que fazer quando der errado (seja com o carro ou com o piloto, também acontece). E a notícia que eu tenho para te dar é que você também pode aprender.
No Brasil recentemente tem se popularizado a cultura dos “Track Days”, um evento em que grupos de pessoas se organizam e alugam o autódromo para corredores pagantes, que podem participar com seus carros, sejam eles de rua ou de pista. Nesse ambiente você pode explorar ao máximo seus conhecimentos sobre seu carro e aprender na prática como se portar melhor ao volante — e se tornar um piloto mais habilidoso, seja em pista ou na rua.

Por se tratar de um ambiente seguro e acolhedor, os track days tem ajudado a desmistificar o conceito de que correr é apenas para quem tem bastante dinheiro ou o mais caro dos supercarros. Se você segue as regras e respeita os limites da pista e do seu próximo, até o seu 1.0 vai ser bem aceito. E não é só de “virar tempos” de volta que o evento se propõe: a pista é lugar também de diversão.
O mais interessante é que os track days são, na minha opinião, os responsáveis por trazer de volta as pessoas ao autódromo, e com elas, a vontade de acompanhar corridas e entender o seu meio. Seja para acompanhar seus pais, maridos ou esposas, essas pessoas se reconectam com o principal do automobilismo: seu poder de surpreender quem se interessa por ele.
Numa simples visita ao autódromo acredito que é praticamente impossível um ser humano sair dele sem ao menos se perguntar qual a sensação de se estar em contato com a velocidade, seja dirigindo ou assistindo. É puramente sensorial, os sons dos motores, as cores dos carros — e todas essas descobertas feitas num ambiente seguro, longe da possibilidade de uma multa ou algo muito pior.

Por isso digo que devemos dar mais atenção aos autódromos. Seja você que quer uma rua livre de arruaceiros andando à toda e causando acidentes, você que sempre sonhou em andar no mesmo lugar onde seus ídolos fizeram história, ou quem quer aprender mais sobre seu carro e se divertir: o autódromo é lugar para você sim.
Eu nunca estive num autódromo, e me julgo capaz de fazer essa análise, mas fique à vontade para discordar.
Espero que esse Autódromo do Rio saia mesmo do papel.
(Sugestão do leitor Pedro Henrique de A. Fidelis)



