Não me leve a mal

Não me leve a mal

Boa garoto, tá fazendo m****

Não me leve a mal

Boa garoto, tá fazendo m****

Eu não sei bem sobre o que quero escrever. Mais uma vez eu me vejo obrigado a dar graças a Deus por ter algum tipo de interesse e extrema curiosidade sobre carros, algo tamanho e que, na posse de algum dinheiro, seria maior ainda, mas por enquanto já me serve bem.

Tenho motivos para não querer levantar pela manhã sendo o mais cortês e amável ao próximo, assim como eu acredito que você também não tenha, ainda se pensa minimamente no que tá acontecendo com as pessoas ai fora. Mas, o senso de responsabilidade te mantém vigilante, então você passa os dias que nem um barco cortando as ondas, torcendo pra aportar logo e que o enjoo passe.

Nisso tudo, eu mesmo já me via abraçado à rotina. Mas num dia desses, um ímpeto me desceu, enquanto assistia o jornal: peguei algumas ferramentas e chaves emprestadas e tirei o escapamento do meu carro. Assim, do nada. Por alguma razão eu não me impedi, e tampouco meu pai, que quase sempre se opõe às minhas maluquices com o carro, até se prontificou a ajudar.

Não se preocupe, nada faz sentido.

O porquê disso tudo? eu não sei. Talvez naquele momento não quisesse ficar mais prostrado enquanto as notícias me batiam e não surtiam mais nenhum efeito. Julguei até se tratar de um rebote da febre do dia anterior, mas não: eu precisava fazer algo diferente, fosse o que fosse.

E vou te falar: que bom que eu fiz isso.

Cansei de ser “fofo”

Assim que dei a partida pela primeira vez, notei que aquela figura dócil e serena do meu carro havia caído junto com o escapamento. O som atrapalhado e a lenta ligeiramente desregulada eram agora um grito grave. Era como se do nada o Cessna virasse um Spitfire, sedento por vingança, cuja única opção era rugir seu caminho rumo aos céus. Enfim, uma poesia do cacete.

Não muito convencido e com um sorriso irretocável no rosto, fui no dia seguinte ao supermercado, comprar qualquer coisa que se sentisse a mínima falta, afim de saber como esse carro se comportaria entre os seus: na rua. Nela, ainda que chovendo, o carrinho redondo perdia o seu ar de fofura à cada acelerada mais funda, e dentro do mercado a recompensa maior: o som revoltado daquele motor fez disparar o alarme de dois carros parados, algo que só havia visto uma moto com cano reto fazer até hoje. Nada mal pra um carro 1.2, mas nada que me desse por satisfeito.

Porém foi mais uma vez o acaso que me fez compreender que o carro é feito de momentos em que se aprecia com ele. Chamado às pressas pra rebocar um casal de amigos que ficou “no prego” perto de casa, novamente na chuva, tive de forçar meu caminho até lá, sem esperar o coitado do carro esquentar. Com a sonda sem entender porque um idiota exigia mais e mais do acelerador com o carro ainda frio, fui tropeçando até ela entender que se tratava de uma emergência. Chegando lá já com o carro à plenos pulmões, dava pra ver na cara deles que me ouviram chegar de longe.

Aliviado por não precisar rebocar ninguém, nem me abalei em saber que saí de casa desnecessariamente, pois ia adorar fazer o caminho de volta, agora com o carro já quente. Já indo pra casa, passo em frente à uma igreja que acabara de terminar seu culto. As famílias ao verem o Gol azul rugindo como se tivesse algo de errado com ele dividiam as expressões entre alegria e completa ojeriza. As crianças e suas mães, respectivamente.

Chegando em casa me dei conta que é bom quebrar a rotina de vez em quando, e que alguns conhecidos não estão tão errados assim quando se trata disso. Ainda que guardadas as devidas proporções, claro. Felizmente meu carro nunca mais será o mesmo, e isso é bom. Significa liberdade.

Tire o escape do seu carro por um dia, é terapêutico.

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