No Girar da Chave — Opala Vinho
No Girar da Chave — Opala Vinho

No Girar da Chave — Opala Vinho
Um Sonho de uma Tarde de Verão
Olá. Esta é uma nova série de contos automotivos chamada “No Girar da Chave”, onde a intenção é te fazer embarcar no mundo por detrás das imagens, sensações e emoções do automóvel. Então, sempre que você vir esse título não espere uma crônica, pois de sério já basta o viver. Bom proveito.
198x. Não importa muito o quão caótica é a situação do país, em que você está prestes a “eleger um presidente civil” e que já perdeu a conta de quantos zeros tem a moeda que você precisa pra comprar um refri gelado. No alto da juventude, e da habilitação recém tirada, o que lhe importa é que finalmente seu velho já te julga adulto o suficiente para ter acesso ao velho carro da família. Depois de muita negociação e encheção de saco, ele ficaria só pra você, afinal, a nova linha Opala era um horizonte possível para os seus pais.

Chega o grande dia. Esbaforido, você chega do trabalho e vê seu velho dando uma última olhada no velho bólido, dele desde zero, e com um misto de pesar e relativo orgulho (mais pelo fato de que ele ainda continuará debaixo das suas vistas), e lhe entrega as chaves. Não sem escapar do som da velha frase de todo pai minimamente preocupado: “juízo, hein”.
Você não consegue se conter de tamanha euforia. Depois de muita condução lotada e de gastar mais pneu de bike do que ônibus circular, você tem em mãos um Opala Cupê, cor de vinho, para chamar de seu.

O câmbio na coluna leva um certo tempo para se acostumar, mas para quem passou os últimos 18 anos vendo o pai o cambiando com maestria, logo o medo se dissipa. O rodar macio dos quatro cilindros de certa forma encantam, mas nas curvas os pneus, mais finos que a canela alheia, dobram com facilidade. Não que isso seja um problema para uma pessoa comum, mas você não é que nem todo mundo, sua mãe já dizia. Uma hora ele ia precisar deixar aquela imagem paternal e segura de carro de família, e começar a ter mais a sua cara.
Com seu salário agora regradinho, e com o ouvir das vozes da sua cabeça (seus amigos) dizendo que o visual careta não está com nada, a ida à loja de acessórios é o começo de tudo. Quando você menos espera, rodas, volantes, rádios e milhas parecem uma realidade possível e algo que cairia PERFEITAMENTE com aquele velho cupê parado lá fora. Cheque em mãos e ideias saindo pelo ladrão, você começa a transformação.
Depois de muito trabalho duro e inúmeras idas à lanchonete no fim de semana empurradas para “quando desse”, você finalmente contempla a realização do seu sacrifício.

Você não acredita no que vê. Sentado à beira da calçada da casa da avó, de muros baixos e piso feito de todos os azulejos possíveis, você admira a obra de arte que o velho cupê se transformou. A pintura ainda não é lá essas coisas, e o câmbio ainda encavala às vezes, mas o que realmente importa é que agora os pneus diagonais se foram, entraram belas rodas, milhas, um Pioneer de último tipo e uma antena de longo alcance.
É o auge da realização de ver seu primeiro carro deixar de ser aquele velho navio parado na calçada de casa, e começar a dizer mais sobre você do que você mesmo poderia. Ir ao encontrinho dos pegas na BR? Claro. Levar ela para uma coca no final da tarde? Mas é claro. É sexta-feira e são 17 horas, o mundo é dos que estão na pista.

Uma breve passada em casa para jogar uma água no carro e no corpo, e de repente a fita do Erasmo parece uma boa ideia, por mais incrível que pareça. “O velho não tem mal gosto pra música, vamos ver”, pensa.
Esqueça o perfume, o almíscar de gasolina e do tecido dos bancos é tudo que existe dentro daquele carro, e com certeza o dela é o que realmente importa. Carro limpo, fita no tapedeck e alguma gasolina no tanque, é abrir o portão e sumir no mundo, ao menos por aquela tarde.
Aproveite, pois esse fim de tarde será eterno.



