O 106 e a Equipe Chora na Rampa
50 cv de puro ódio

Quem me conhece sabe que não tenho nenhum bom motivo para rasgar elogios à Peugeot. Apesar da insistência dos amigos em mandar anúncios e por muitas vezes torturar minhas ideias com projetos incrivelmente baratos, o pensamento segue quase intacto, pois conheço maneiras melhores de passar raiva.
Das muitas idas e vindas da vida, acabei numa viagem de última hora à São Paulo, a fim de visitar o bom amigo e integrante do GPC Gianlucca Merlino, e também esquecer que eu havia recém-saído de 6 meses do mais puro marasmo automotivo. Eu falo mais da viagem em si num próximo texto, que você pode ler aqui (se você vê essa frase é porque ele ainda não está pronto).
Desde o primeiro contato visual com o 106 Kid 94/95, ainda por telefone, uma coisa era certa: era o carro mais diferente possível a passar pelas mãos do Gian. Completamente o oposto de seu último Vectra, o Peugeotzinho parecia quase inadequado ao alto amigo, que já parecia fora de órbita dentro de sua finada Uno.

Feeling like a Kid
Já ao ligar, os 50 cv do pacato TU9ML/Z mostravam que não havia vida fácil com seu novo dono. O som estridente da falta de o que quer que fosse no escape deixavam claro que sua função era chegar nos lugares antes mesmo do carro, como todo bom 1.0 mal intencionado. Não só não julgo (pois fiz o mesmo com meu carro), como incentivo.
As dimensões minúsculas do carrinho passam a ideia de ser um festival de claustrofobia, mas é o oposto disso. Surpreendentemente amplo, o 106 comporta bem a configuração padrão de quem o tirava zero em 94: um casal e uma criança e meia. Depois de engazopar consideravelmente tal como qualquer carro monoponto dos anos 90, o peugeotzinho revelava sua carta na manga: parecer ir à milhão, mesmo estando a quarenta por hora.
Numa das alças de acesso à Raposo Tavares, o 106 berrava pela vida dos 3 seres humanos que carregava, ladeira abaixo. Um show sonoro marcha à marcha, giro a giro, que se não fosse pela completa morte do velocímetro, poderia dar a certeza de estar a 250 km/h. Uma excelente primeira impressão, que só poderia melhorar piorando o conjunto. E nisso fizemos questão de dar um jeito.

Na manhã seguinte, já muito convencidos da capacidade nada diplomática do 106 de impressionar, o escapamento “caíra” por completo, transformando o carrinho numa potência bestial e minúscula. Ninguém poderia dizer, à distância, que se tratava de um carro de 50 cv (isso quando novos), anunciando aos quatro ventos que se o tempo estivesse favorável e os pneus fossem novos, poderia subir Pikes Peak numa boa.

A cara dos populares na rua, completamente perturbados pela aura caótica do Peugeot, era impagável. Numa ladeira bem íngreme, o pequeno francês e sua nova modificação foram postos à prova. Mesmo pisando tudo e com todo o som e fúria possíveis, o carro não passava dos 50 por hora. Noutra ladeira ainda mais íngreme antes, e com 4 pessoas no carro, o receio era que ele sequer terminasse a rampa.
Nasce a Equipe Chora na Rampa

O que ninguém esperava é que tamanha diversão cobraria seu preço, e logo após o fim da ladeira, o pugzinho “mavecou”, e nos forçou a parar. Uma rápida investigação acusou pouco líquido de arrefecimento, algo que qualquer posto de gasolina poderia resolver. Carro frio e com o posto a menos de 500 metros de casa, bastava completar o nível e torcer pelo melhor.
De volta à estrada e rumo a Liberdade, o 106, agora à plenos pulmões e com seu dono razoavelmente pirado ao volante, mostrava sua verdadeira face: ser um monstro nas curvas. Um chassi curto, somado ao baixo peso do carro e um curso de suspensão de fazer inveja apenas à uma bicicleta, faziam do Peugeot algo inigualável em entrada e saída de curva. O pouco que a Brasília acompanhara não era suficiente para impedir que o francês se divertisse. O dono então, em gestuais agressivos, garantia que não seria ultrapassado, e de fato não foi.
No sinal de trânsito quilômetros depois, alinhados os carros, dava pra ver o quão em casa o Gian estava com o 106. Um carro minúsculo, inadequado, com vários pormenores a fazer e resolver, mas que parecia feito sob medida para seu dono. Se faltava alguma emoção naquela conexão, certamente eles iriam buscar isso juntos.
E não deu outra.

Horas depois, o telefone toca e as notícias eram péssimas. O Peugeotzinho havia fervido pela segunda e última vez, e fora resgatado por um reboque da rodovia e deixado pernoitando num posto. 1 da manhã subimos na Brasília ao resgate do nosso ensopado amigo, numa chuva que mais parecia cenográfica de tão estúpida. Ânimos acalmados e com mais 30 milhões de dólares injetados no McDonalds mais próximo, era o fim da noite para nós e para o 106.
O Resgate do Soldado Ryan
Na manhã seguinte, compramos uma corda e amarramos a Brasília ao Peugeot, a fim de completar os pouco mais de 2km entre o posto e a garagem do Gian. Para nossa sorte, o 106 pesa o mesmo que um fardo de Coca-Cola, então puxá-lo não seria um problema.
A cara dos que assistiam a cena era tão ou mais impressionante que qualquer coisa vista antes na viagem. Um carro 76 puxando outro muito mais novo, e ainda menos rodado, era algo que dava um nó em quem passava por nós. Depois de muitos e inevitáveis trancos, o Peugeot estava novamente em casa.

Após breve análise, foi constatado que a causa do “mavecamento” do Peugeot era a termostática travada, um problema comum nesses carros. Cabeçote condenado, só restava ao Gian a paciência e tempo para resolver a vida do pequeno hatch.
Mesmo assim, era nítida a vontade dele em não se deixar abater pelo carro, e mais do que isso: salvá-lo. Assim como a imagem de 24 horas antes, ele parecia determinado em manter viva a relação com o peugeotzinho. Qualquer um ficaria ferido de morte numa situação dessas, eu incluso, mas ele não.
Em poucas horas dezenas de alternativas e contatos eram postos na mesa, a fim de bolar alternativas de manter o 106 na rua. Se alguma delas deu certo ou não, acho que só vou descobrir na próxima visita.
Fato que é surpreendente o 106. Pequeno, valente, bom de curva e dono de um carisma irretocável, parece mesmo o carro certo para o Gian. Que bons ventos os mantenham na pista. (E conserta esse cabo do velocímetro, ele merece).
Veredicto? Ç’est si bon.



