O Cybertruck e o novo Alpinismo Social

Tá cada vez mais down no High Society


(Renha/Divulgação)

Você é pobre. Pode até não ser miserável, mas é pobre, seja de dinheiro ou de espírito. Não me leve a mal, não estou hackeando sua conta no banco ou perguntando à sua mãe quanto você gastou no crédito mês passado, mas estou dizendo que você nunca será como eles.

Já te digo quem são eles, mas antes você precisa de um contexto. No mundo automotivo, altamente classista, existe quem tenha o melhor e o pior carro, e o fator determinante é geralmente o preço. Se o valor é parelho ou pouco importante, vale a imagem, e nesse caso, a imagem de que “sou melhor do que você, pois fiz a melhor compra”.

AI DRIVR (@AIDRIVR)

O caso da vez é o Tesla Cybertruck. Apresentado ao mundo em 2019 como a melhor geladeira inox do mercado, cravou a atenção do público (e uma bola de aço em um de seus vidros), e acumulou dezenas de pedidos. Papo vai, pandemia vem, muito tempo se passou, e só agora os modelos chegam às mãos da imprensa, e logo do público.

Agora, com as primeiras informações de desempenho vindo a público, a surpresa não é nenhuma. Elétrica, bate, prende e arrebenta qualquer concorrente, bem como alguns esportivos também. Entretanto, se mostra imbatível em força, e frágil em muitos outros pontos. E antes que você se esqueça, ainda estamos falando de uma picape.

Quem são eles?

Excluindo o visual perturbadoramente discutível e suas qualidades, o principal de seus pecados é sim o hype, e junto dele, seu público. Em uma conversa com um bom amigo e membro do GPC (abraços, Victor), sou lembrado que o público principal da Tesla são os fãs de tecnologia, do tipo de pessoa que se encanta pelo futurismo, e não pela praticidade. E isso esconde uma verdade terrível sobre a Tesla em si.

A cultura do “Posso Tudo, Pois Tenho Dinheiro” já rendeu à Tesla e seu proprietário muitas proezas, como ir ao espaço e nos impedir de tweetar apenas para os amigos mais próximos. Mas mais do que isso, permitiu ao fã do tech ter mais algo para se gabar: agora até o carro dele é melhor do que o seu.

Num mundo de simples explicações, quem tem mais dinheiro, tem melhores tecnologias, e por sua vez é melhor que você. Não se engane, no mundo automotivo isso é extremamente vivo e latente, e vão desde o BMW X1 usado até Q8 E-Tron. “Eu tenho MAIS CARRO do que você”, e pode até ser verdade, mas ainda não é um Tesla.

O dono do Tesla se coloca em uma posição especial, pois além da montadora e seu sucesso para se gabar, há ainda uma rede social e uma agência espacial nas costas. Você com a sua picape com 4 ton. de reboque não pode contra um bilionário excêntrico que pode destruir o mundo se acordar de mau-humor. O buraco é mais embaixo.

O Alpinismo Social e o rico imagético

“Isso aí já foi carro” (Chevrolet/Divulgação)

O conceito de “alpinismo social” vem da pessoa que se junta a outras para ascender socialmente, subir de vida, algo que no meio automotivo parece gerar alguns grupos bastante nichados, “especiais”, só para quem pode. Apesar da estranha comparação, tente acompanhar: nos anos 80, um brasileiro médio, ao comprar um Monza ou um Santana, colocava-se como o dono do mundo, ainda que só da sua rua, rodeada de Fuscas e Chevettes. No mundo moderno, mais precisamente na terra do hambúrguer e do queijo enlatado, o Tesla é isso, um divisor social, um símbolo de status.

Depois de conquistar os sedãs de luxo, os médios e os SUVs, a marca agora chega com a melhor das picapes. A mais rápida, a mais futurista, a mais diferente, onde ninguém pode te superar. Os números fazem você se sentir especial, o preço te separa dos plebeus, e você se torna o dono da rua. Até porque na sua rua ninguém teria a necessidade de um carro assim. É isso, você venceu.

Entretanto, tornou-se apenas mais um no culto à posição, ao status, ao simples mau-caratismo de querer dizer a todos que, não importa o quanto tentem, jamais irão te superar. Você é o novo dono do mundo. Até que os problemas comuns aos Teslas apareçam, ou outro surto empresarial da marca surja com algo melhor. Aí, sim, você será um de nós novamente. Um pobre.

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