O Dart Branco

O Dart Branco

Família não se escolhe, se adapta

O Dart Branco

Família não se escolhe, se adapta

Lidar com familiares é algo que escola nenhuma no Mundo vai te ensinar. Seus temperamentos imprevisíveis, nuances e formas de enxergar a vida parecem ter camadas ainda mais densas e complexas, justamente pelo fato de não se conviver diariamente com eles. Mas ainda assim, podem ser surpreendentes.

Meu tio era uma dessas pessoas. De comportamento sempre muito direto e turrão, piorado por sua breve vivência no Exército, requeria esforço para enxergar suas qualidades. Mas um ponto em comum nos mantinha ligados, além do parentesco por parte da minha mãe e da boa amizade com meu pai: os carros.

Das suas muitas fases pessoais, seus carros sempre foram um marco na minha vida. Quando era bem pequeno, lembro brevemente de um dos seus momentos de glória financeira: um Logus GLi 1.8 branco, que apesar de usado era incrivelmente novo. Só andei naquele carro uma única vez, o suficiente pra não esquecer os tecidos claros da interna e do ar condicionado, que incomodava de tão gelado.

Esse mesmo tio fora o “tutor” do meu Fusca enquanto eu ainda não tivesse idade o suficiente para dirigir. Nos seus anos como feirante, usou mais aquele carro do que nós jamais poderiamos.

Adiantando a história alguns anos, a família se rompeu e ficamos sem nos falar por longos 13 anos, até se reconectar por acaso seis anos atrás. Já muito mais velho, usava como daily driver uma Asia Towner SDX rosa metálico, algo impossível de se perder de vista no trânsito.

Fiel companheira dos tempos da feira, a pequena perua trabalhava ativamente carregando as traquitanas a serem vendidas, religiosamente, todo domingo. Com carburador de moto e pedais minúsculos, a vanzinha coreana sempre era ágil na cidade e se recusou a deixá-lo na mão, mesmo com a completa falta de mecânicos especializados no pequeno motor 0.8. “Eu que faço toda a manutenção dela”, sempre dizia orgulhoso.

Com certeza um dos carro mais assutadoramente divertidos que eu ja dirigi.

“Eu fui feliz com aquele Dodge”

De todas as suas histórias, a minha favorita era que nos anos 80, sem muito dinheiro no bolso e precisando mover sua recém-criada família, comprou de um senhor que não podia mais dirigir um Dodge Dart de Luxo, branco, ano 74. “Ele era completo, direção, ar condicionado, tinha de tudo Rodrigo, você precisava ver. E como andava”.

Lembro de quando me contou animado que “precisou” dar um cavalo de pau com o dojão, pois estava indo na direção contrária da casa da minha tia e precisava dar meia volta. Pra mim, são momentos como esse que validam não só o dirigir mas também o viver, pois são histórias que unem a gente, e vale a pena passar pra frente.

Disse que nos anos 90 a vida o obrigou a vender o Dart, muito a contragosto. Pôs um anúncio no jornal e um colecionador paulista o ligou, convidou ao seu escritório no centro do Rio e lá arrematou o velho cupê, enquanto mostrava fotos de seus outros carros. Achei se tratar de um conhecido colecionador de Dodges nacionais, mas ele me garantiu que esse homem já era grisalho à época, então não poderia ser. Nunca mais teve notícias de seu carro e desde então não teve nada remotamente parecido com ele, e na atualidade, nem sequer poderia.

Minha grande vontade era achar esse Dart branco e dar a ele a oportunidade de andar nesse carro novamente, e não me faltava quase nada, apenas todo o dinheiro possível. Antes que pudesse sequer por o plano no papel, um câncer o vitimou fatalmente.

Desse personagem familiar, “herdei” a grande admiração e respeito pela Towner, cujo destino é incerto e me cabe respeitar qualquer que ele seja. Sua capacidade de consertar praticamente qualquer coisa eletrônica e ter sempre um fato histórico na ponta da língua ajudam a compor as boas lembranças que ficarão desta pessoa tão especial em minha família. Com toda a certeza deixará saudades.

Obrigado por tudo, tio.

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