O Exibido, Parte II
O Exibido, Parte II

O Exibido, Parte II
Menos “eles”, mais você mesmo.
Uma das minhas primeiras crônicas nesse site foi escrita em junho de 2019. Era sobre uma coletânea de comentários e sensações que eu havia colhido em 1 ano de carro próprio, meu amado Gol 1200i, à época ainda 1.0, esperando retífica e me obrigando a suar cada troca de marcha e cavalo-vapor que restava no motor.
Era o texto “O Exibido”, que falava sobre a forma como as pessoas normais reagiam à forma enérgica como eu dirigia, quase que necessária pra fazer aquele carro andar, e acima de tudo, espantar os demônios vindos da depressão e uma vida prévia esperando por aquele momento atrás do volante. Eu era muito preocupado com a forma como aqueles comentários me atingiam, mas como todo motorista recém-chegado na pista, tudo assusta mesmo.
O que me fez voltar nessa história foi uma conversa recente com um velho amigo. Numa discussão fora de hora sobre os novos Porsche Cayman GT4, o fato deste novo modelo ser 20 segundos mais rápido que o antigo é o que o motivara a ficar vidrado no pequeno “hiperesportivo”. Ele, sendo ávido fã dos modelos mais hardcore da marca, a tão desejada linha RS, fez um discurso cheio de detalhes do porque não se importaria com todos os inconvenientes de um carro de pista que pode rodar na rua. Vidros que não abaixam totalmente? Não importa. Acordar os vizinhos de madrugada voltando do role com o carro roncando alto? Sem problemas. Suspensão travada para baixar tempo em autódromo, dura demais pra cidade? “Não tô nem vendo”, ele responderia.
Eu sempre gostei de analisar o gosto automotivo alheio, uma mania esquisita minha. Sempre fui adepto da ideia de que seu carro tem mais a dizer sobre você do que você mesmo seria capaz de me contar, por qualquer que seja o motivo que levou você a ter ou querer tal carro. Um hiperesportivo capaz de destruir as curvas de Nurburgring (e a sua coluna) não teria nenhuma dificuldade em dizer algo sobre seu dono. Cheguei a ponderar que escolher um carro assim ao invés da sua versão civil (GT3 Touring, sem asa, manual) seria uma escolha menos sensata, mas ele foi categórico:

As cores vibrantes, a completa inutilidade urbana e a gigantesca asa de fibra de carbono acabavam por dizer muito sobre a personalidade, e ainda mais sobre seu estado de espírito, do que este mesmo poderia elaborar. A aura confusa de um hipercarro, com escape preparado, menos de 20cm de altura do solo dizem uma coisa numa pista, mas outra completamente diferente na rua. É quase uma melancia no pescoço.
O exibicionismo que um carro desses promove é algo que agride aos normais. Eu e você, e quando digo você me refiro aos que gostam mesmo de carro, pensam lá na frente sobre o porquê daquele carro estar passando por você, seja ao vivo ou na sua mente. É alguém que na maioria das vezes sabe o que está fazendo, e mesmo se não souber, tomou breve consciência disso ao tirá-lo da concessionária.
É a necessidade de ser visto, amado e odiado, que nos motiva a querer existir. Um esportivo, um SUV de luxo, um Porsche, um Bentley, um antigo nacional bem cuidado: todos eles dizem a mesma coisa, você está marcando presença, e por mais que a vida tenha te negado a chance de ser notado no passado, isso ficou pra trás, pois todos estão te vendo agora.

Nosso amigo precisa de um conforto à mente tão atribulada e cheia de perrengues que a vida nos joga o tempo todo. Seu fator exibido não necessariamente faz dele uma pessoa ruim, pois este sabe que oscilar entre ter toda a atenção e fugir dela é o equilíbrio perfeito. Na semana útil um popular com ar, no fim de semana, o GT3 RS e todo o ronco maldito de um escape Akrapovic.
Portanto, tal como na outra crônica, seja exibido. Seu carro atual pode não dizer muito sobre você no momento, mas suas escolhas e desejos automotivos são o retrato mais fiel de você mesmo, e por mais extenso que seja o julgamento, a conclusão é sempre a mesma: o que não é normal pra você pode ser para o outro, então cada um na sua.



