O TSI
O TSI

O TSI
A doce dependência
Eu prometi que voltaria a falar sobre carros (e pra falar a verdade até preciso), então cá estamos, com algo que já via a necessidade de dizer a muito tempo. Não é nenhuma surpresa que o Volkswagen Up! é parte integrante da minha família por um bom tempo, e esse texto é a continuação do Upside Down, onde contei as desventuras de ter um Up MPI como carro familiar de uso diário.
No final de 2021, as notícias de que o Up TSI sairia de linha começavam a pipocar por ai, e eu realmente não me importava muito com isso, afinal esse carro sempre fez mais o estilo de boy racers metidos à besta, amantes de Stage 8 e Monster à 12 reais num postinho de madrugada. Zero compatibilidade com uma família de 3 pessoas onde duas delas raramente vão passar de 80 por hora sem necessidade.
Porém, novamente, a vida é irônica e completamente imprevisível, e o TSI passou a ser uma opção viável para substituir o MPI, que já fora de linha, daria problemas na revenda, por ser menos desejado pelo público. O que por si só seria uma mentira, haja vista que um carro muito bem cuidado e com 8.500 km seria mais que bem vindo nas mãos de qualquer dono. Nem foi preciso muito convencimento pois os pontos principais do Up já haviam sido testados pela família, então logo o martelo foi batido.
Quem procura, acha

No início de Março de 2021, mês em que a produção foi encerrada em definitivo, a família decidiu ir atrás do carro. Ligamos para praticamente todas as concessionárias VW do Rio de Janeiro e a resposta era sempre a mesma: “estamos sem estoque, a fábrica não entrega mais”. Quando já íamos desanimando e pensando seriamente em ir na Chevrolet ver um Onix básico, uma concessionária em Itaguaí respondeu: “estamos para receber um carro do último lote da fábrica, teremos apenas 1 para venda”. Não pensamos muito, era nosso.
O carro chegou e o recebemos, um Preto Ninja modelo “Xtreme”, e nada era muito distante do que já conhecíamos, excluindo as rodas de liga diamantadas e alguns apliques de plástico. Mesmo tamanho, mesmo aperto, agora com a desculpa esfarrapada de quatro lugares ao invés de cinco, num carro que mal acomoda 3 pessoas confortavelmente. Mas o melhor estava por vir, realmente.
O motor MPI, aspirado e com 75 cv, agora dava lugar ao 170 TSI, de 105 cv (no álcool) e 17 kgfm de torque, graças a um Turbocompressor. Esse não era o primeiro carro turbo da família, e tampouco 1.0 Turbo, mas a forma de entregar potência era muito diferente do que se podia esperar de um subcompacto, principalmente se comparado ao modelo com 30 cv à menos. Algo que podia ver nitidamente ao me deparar com meu pai dando 130 por hora num carro com só 18 km no hodômetro.
Falemos um pouco mais sobre isso.
O poder corrompe
O que a primeira vista pode parecer nada tão atrativo assim, afinal é só mais um frigobar com rodas feito pela Volkswagen, se mostra bastante animado em situações normais do trânsito. Precisa ultrapassar? Uma chamada um pouco mais atenta ao pedal e a turbina te empurra sem muito esforço, e a colada no banco é garantida, por menor que seja. Saídas de sinal também são o ponto forte do pote de sorvete, que mesmo com o controle de tração ligado, permite pequenas cantadas de pneu e surpreende e afasta (com folga) donos de banheiras maiores, mais velhas e com o dobro da litragem de motor.
“Anda muito. É possante.”
— Meu Pai, quando perguntado sobre o desempenho do Up TSI.
Ajudado pelo baixo peso, motor sobrealimentado e o câmbio de engates precisos, o TSI faz milagre no trânsito e não faz feio no rodoviário, se mantendo em boas velocidades médias sem sacrificar o “conforto” dos que viajam nele. Econômico também é, mas só se você se dispuser a dirigir que nem gente na maioria das vezes.
E é aí que tá o problema: quase sempre não dá.

Chamei esse trecho de “o poder corrompe” por uma boa razão: dirigir o TSI é instigante, e dá ao motorista a breve noção de tudo posso, algo que só um carro pequeno com um motor “grande” pode dar. Ter ao seu comando um Turbo que dá o empuxo que você precisa e pode te colocar na frente dos desavisados quando provocado é viciante.
Tiro por exemplo meu pai, onde depois de muitos anos dirigindo carros comuns e sem qualquer gota de esportividade, mudou drasticamente seu jeito de guiar. Ao volante do TSI, o pacato cidadão torna-se ávido pelo encher da turbina, o colar no banco e a facilidade nas ultrapassagens, isso sem sequer passar da terceira marcha. Se eu sou irresponsável por querer chegar aos 120 na quinta marcha num carro de 60cv (estimados), o que dizer de alguém que está aos mesmos 120 no TSI, em terceira marcha, e parece não ligar?
Se o efeito no patriarca da família foi imediato, em mim não poderia ser diferente. Das poucas vezes em que dirigi o carro, só tinha olhos pra sensação abobalhada que é o Turbo te dizendo “tudo bem, vamos chegar lá mais cedo”, e do sorriso no rosto que isso te dá. A direção elétrica é confortável na cidade e não muito leve na estrada, mas o ponto da embreagem segue estranho, alto. Parece via de regra em Volkswagens modernos, pois o T-Cross manual era a mesmíssima coisa. Punta-tacco? Esqueça.
Mas uma coisa me ganhou de imediato: fazer uma curva fechada e ter o motor e turbina cheios para sair dela à toda é de fazer qualquer um sorrir de orelha a orelha, por semanas. Não à toa, isso foi em Abril e eu ainda tô sorrindo. Parece bobeira toda vez que digo que o TSI é o Gol GTS da minha época, mas eu não tenho motivos para não acreditar nisso. A maneira como o carro te veste é assustadora, não pra te amedrontar, mas pra te manter ali, focado, dirigindo e querendo mais daquela caixa de sapato. Não é um carro esportivo, muitos vão te dizer e é verdade, o carro não se dispõe a isso, mas a esportividade está na sua cabeça, então é preciso ver pra crer.
Claro, o ronco do motor é feio, a ergonomia é estranha à primeira vista e você leva tempo para se acostumar com o pedal de embreagem lunar, mas se conseguir passar por esses pormenores, você terá nas mãos um carro pequeno, muito ágil e capaz de te arrancar suspiros no trânsito e fora dele.
Bônus: A “Liver Run” de baixo orçamento
No momento em que termino este texto, estou me recuperando de uma crise respiratória que “explodiu” na quarta-feira passada. Com as vias aéreas e a garganta fechando, e ardendo em febre, respirar pra mim era torturante, então tive que ir às pressas para o hospital.
Tarde da noite e com 35km pela frente, a família entrou às pressas no TSI e sumiu avenida adentro, afim de que eu tivesse o acompanhamento médico necessário antes que piorasse. O pequeno frigobar preto ninja era imbatível no trânsito apinhado pós-hora do rush, e um trajeto que levaria normalmente uma hora levou 35 minutos.
Não me cabe comentar o modo como meu pai estava dirigindo, mas todos podemos afirmar que quando um familiar seu está em apuros, tudo ao redor disso é indiscutível. Não é como se eu fosse morrer ou precisasse de um transplante, mas foi importante chegar ao hospital o quanto antes, para que aquele mal estar se dissolvesse e se provasse, dias depois, não ser nada gravíssimo.
Então sim, faz toda a diferença ter um carro Turbo em casa, e se você não acredita, é porque ainda não precisou de um, por qualquer motivo que seja.
Veredito: É sim o melhor carro familiar que essa família já teve e você deveria sim ao menos guiar um para entender. Vá pela cabeça de quem tem, teve ou já dirigiu, e não pelos comentários de meia dúzia de acebolados online.



