Os Reis da Rua, Vol.II
Os Reis da Rua, Vol.II

Os Reis da Rua, Vol.II
De grande só o carro, não os donos.
É claro que você e eu sabemos que as ruas estão cheias destes carros. De norte a sul do país, o SUV (Sport Utility Vehicle) tomou de assalto as garagens, calçadas e avenidas como o transporte favorito da classe média, unindo as duas necessidades básicas deste público: levar a família ao shopping no fim de semana, e se exibir para os amigos e plebeus nos dias úteis. E não é a primeira vez que eu falo isso aqui.
Mas o motivo que me traz aqui hoje é diferente da primeira parte desta crônica, escrita em 2019. Desde então o carro em si deixou de ser a principal vítima dos meus comentários meio-ácidos-meio-calabresa de sempre, pois o espectro a se analisar agora é outro: seus donos. Esse maravilhoso espécime animal, que tem um jeito único de se manter relevante num mundo altamente competitivo, que só existe dentro da cabeça daqueles que podem pagar um IPVA superior a 3 mil reais num hatch/sedan alto e ainda achar graça.
“Você sabe com quem está falando?”
“Seu carro é a extensão de você mesmo”, já dizia Marshall McLuhan, ou se você preferir uma fonte realmente mais fidedigna, um comercial do Fuscão 1500 73. Ainda que seu carro as vezes não possa dizer com 100% de exatidão como você se porta diante das outras pessoas ou situações, alguns donos de SUV se esforçam para que o carro faça o papel social de apresentá-los ao público, sem que o motorista diga uma palavra sequer. Como? Tornando possível mexer com a cabeça de quem está do lado de fora, esteja dividindo pista ou mesmo na calçada. Um jogo mental que obriga o seu próximo a respeitá-lo, ou no jeito mais maquiavélico possível, temê-lo.
Por possuir um carro grande, seja ele derivado de um outro pequeno, um hatch compacto ou até mesmo porque determinada montadora o deixou sem opções de outros modelos para escolher, o proprietário deste veículo está investido de uma grande fortaleza sobre rodas, sentado numa poltrona alta tal como um rei, onde a rua é seu mundo à conquistar, e todos os outros ao redor são bárbaros ameaçando seu reinado.

Investido dessa armadura de metal com motor turbodiesel, nosso espécime se sente invencível, ou no melhor espírito brasileiro, propício à carteiradas sem fundamento. O carro grande lhe dá direito automático a ocupar qualquer espaço na rua, a te cortar inadvertidamente, fechar sem motivo e a minha favorita: provar que o carro dele anda mais do que o seu. O atual favorito do público é o Jeep Compass, seja pelo porte de suv importado, pelo motor a Diesel ou pelas parcelas à perder de vista, e ao menos em mim tem provocado imensa aflição sempre que vejo um desses no meu retrovisor.
Temo mais pela honra do meu amado Golzinho do que pela minha própria vida, então sempre me preparo psicologicamente para ser empurrado NA DIREITA ou fechado sem razão, pois o “doutor” fulanelson não pode se atrasar para o crossfit ou a reunião bi-semanal do Partido Novo. Nisso, um causo pessoal pra fortalecer a história. Ano passado, voltando da casa de um amigo, pego a avenida de noite a fim de ir pra casa, e fico na direita. Na minha frente, um Compass diesel preto andava devagar e eu achava se tratar do radar que havia à frente. Passado o radar ele continuava devagar, e aproveitando o vácuo dos carros atrás de mim, cortei o cidadão pela esquerda, que estava ao celular.
Mesmo 1200 o Gol não tem muita potência, então é preciso pisar um pouco a mais para fazer uma ultrapassagem limpa, e assim o fiz, ficando na esquerda mesmo pois não havia ninguém atrás de mim e queria chegar logo em casa. Metros depois, o Compass resolve aproveitar a reta e se vingar da maneira mais furiosa possível, atochando o motor à diesel e me cortando à toda pela direita, e para finalizar o espetáculo, me fechando. Não sei se as luzes laranja dos postes refletidas no belo azul metálico cegaram o homem, ou se ser ultrapassado por um carro escrito “Gol 1000” na tampa da mala significa “vai se f*der” na sua língua nativa, fato é que fui pra casa sem entender aquela.
Título de Nobreza
Fato é que mexer com donos de suv é mais que balançar um vespeiro, é basicamente por fogo em seus egos. Um bom amigo, que me motivou a escrever esse texto, recentemente escreveu que o Compass é o carro-símbolo da gentrificação. Pra você (e pra mim) que não veem uma aula de geografia a anos, esse conceito significa basicamente tornar “chique e desenvolvida” determinada região, a fim de movimentar a economia e esconder a imagem que tal região tem problemas sociais históricos (má distribuição de renda, mobilidade precária, falta de serviços básicos, etc), e parando pra pensar, a comparação com o Compass, e aqui estendo a outros SUVs também, é genial.
Assim como uma prefeitura que manda banir os sem-teto de suas ruas e proíbe as esmolas para ficar atrativa à turistas (Balneário Camboriú, por exemplo), o SUV é um belo cartão de visitas de um motorista inseguro, seja ao volante ou sobre suas atitudes nele. O carro grande esconde a incapacidade de respeitar o espaço de carros menores, ciclistas, pedestres ou mesmo de lidar com seus próprios defeitos, que desaguam diretamente na forma de se dirigir.

Não é preciso pedir por respeito quando pode-se simplesmente exigi-lo, e na rua isso se ensina ao custo de que, se um dos lados não ceder, o prejuízo pode ser financeiro ou até mesmo fatal. Novamente, não é culpa do carro, pois eles tem suas qualidades e uma função social muito clara: ser um meio de transporte confortável e seguro, e até mesmo para os que podem pagar, um símbolo de status. Mas para a maioria dos que circulam nas ruas hoje, o carro deixa de ser um sapato de marca ou uma pulseira de ouro, mas sim um distintivo falso, e teoricamente inquestionável.
Eu gosto de alguns suvs e nunca tive problemas em admitir isso, mas a forma como eu enxergo esses carros é mais como função do que forma. Poderia colocar na conta de que todo o mercado atual é focado neles, mas isso é assunto para um episódio do PodCarro, então nos vemos lá.
Agradecimento à Luiz Mantovanelli pela sugestão do tema.



