Paranóiense
Paranóiense

Paranóiense
Unidade Federativa da Neura
Nem tudo nessa vida foi feito para dar certo, mas tem horas em que você realmente duvida do quão abrangente essa frase pode ser. Na continuação da saga dos textos deste mês, a viagem nos leva um pouco mais longe do que a Serra da Grota Funda ou mesmo da Avenida Europa, e desagua em Curitiba, no Paraná.
A ida, que fora adiantada um tanto antes do esperado por motivos que até eu não saberia dizer quais, foi estranhamente tranquila, e trazia às vistas algo até então inédito pra mim: a Rodovia Régis Bittencour, que liga o São Paulo à região sul. Uma imensidão de asfalto, paisagens que mais parecem saídas de um livro de geografia, e uma quantidade incontável de caminhões. Caminhões estes que, de tão constantes e enfurecidos pela estrada, pareciam comer o asfalto de tão rápidos, sempre movidos no mais puro ódio diesel.

Uma das virtudes de viajar com seus amigos é ignorar quase que completamente o relógio. Conforme as milhas iam sumindo, e faziam o odômetro parecer jovem de novo, os assuntos, histórias e notícias ruins iam ficando para trás, onde o único objetivo era o destino, e mais nada. Além de querer sair do gigantesco estado de São Paulo, que não satisfeito em nos levar o pouco que restava de paciência, levara também a internet e a rede de telefonia, então ouvir música na viagem era um certo martírio.
Após uma parada ou duas, e da chuva que é praticamente obrigatória na estrada, o Paraná já se fazia visível pelas placas à direita da pista. Depois de mais uma hora de infindável mato e lojas de rádios PX (e um dos integrantes da trupe MUITO falar nisso no caminho), Curitiba começa a aparecer no para-brisas.
Agora era chegar, descarregar as malas e descansar, pois além de ser minha primeira vez na cidade, só ouvia coisas incríveis sobre lá, fruto de experiências passadas dos que iam comigo e de outros amigos que também já estivem na cidade. Uma parte boa dos ouvintes e amigos que fiz com o PodCarro moram na região, então eram a hora e lugar certos pra se estar, certo? CERTO?
Claro que eram, ué.
A noite que não acabou
Descarregados, cansados e mais animados que crianças em manhã de natal, logo tínhamos que estar no point mais badalado da cidade, algo que de tão esperado (ainda mais depois de assistir inúmeras propagandas à 800 km de distância), não iria postergar a ida por mais nenhum dia: uma barraquinha de cachorro quente prensado, na região do Boqueirão, chamado Burnout Hot-dog.

Por mais mundana que seja a ideia de ir comer um dogão prensado de noite possa parecer, foi uma experiência incrível. Donos de um serviço impecável e atencioso, é até clichê dizer que me senti em casa. Não só por estar rodeado de amigos, mas por poder fazer as duas coisas que me considero pós-mestrando: comer e falar extensamente sobre carros.
E conforme os amigos chegavam, o papo tomava corpo, cor e som diferentes. Não parecia que a maioria ali se conhecia apenas pela internet, seja pelo intermédio de grupos e gostos em comum, mas como se todos falassem o mesmo idioma, que aos ditos outsiders soa como grego ou troiano: carro.
Aquele breve momento de várias informações diferentes e totalmente caóticas, mescladas com sons de motor, marcas de uma freada forte na rua e meia lata de energético atirada à queima roupa no pé de um dos nossos, parecia a maior das calmarias. Todo mundo eufórico à rodo, mas em uma sintonia estranhamente perfeita.

Bom, tudo o que vem depois dessa foto você provavelmente já sabe.
E se não, minhas redes estão em algum lugar do perfil, lá em cima do texto. Me pague um mate um dia, quem sabe eu te conte em detalhes.
Perdas & Danos
Com o humor mais pra baixo que forro de teto de Santana, os dias se seguiram, com uma dose inacreditável de baixo astral, intercalada com um meme ou dois. Parcialmente incomunicáveis, só nos restava voltar pra casa mesmo.
Apesar de tudo, não seria justo encerrar o texto com uma nota tão depressiva sobre um lugar onde a cultura automotiva é incrivelmente mais acesa do que o Rio de Janeiro. O pouco que vi, senti e percebi era o suficiente para um parágrafo ou dois, mas certamente as pessoas que conheci salvaram o rolé por completo.
Nisso, faço meu agradecimento à João Pedro Portella por nos aturar em sua casa e tudo mais, à Thayna Ribeiro e João Ricardo, que pacientemente foram nos visitar na fatídica noite, e a Julia Fonseca e Thiago Lobo, por não só fazerem o melhor cachorro quente prensado que eu já comi na vida, como também eternos culpados por me fazer sentir fome de um lanche que teria que atravessar três estados para ir buscar.
Nossa sessão já está quase acabando, mas temos tempo para mais uma história. Volte semana que vem para encerrarmos isso de uma vez.



