Parati II

Parati II

É muito mais do que parece.

Parati II

É muito mais do que parece.

Eu sei o que você tá pensando. Sério, eu sei mesmo. É um completo absurdo gastar o seu tempo lendo sobre um SUV, um “shopping utility vehicle” como diria o amigo e mineiro profissional Vinícius Franco, na base de seu mais profundo ódio por esse tipo de carro. Mas entenda: é o que tem pra janta, então boa leitura ou nos vemos no próximo texto.

Eu fui contra esse carro desde o primeiro conceito mostrado ao público, e no salão do automóvel, cacei o maior número de defeitos possíveis. Desde o painel com um oceano de plástico cinza, até o “gigantesco” porte, algo normal na minha “exagerância” quando o assunto é malhar alguma coisa. Porém, alegria das alegrias, minha mãe se apaixonou pelo carro, e numa família onde a palavra final da chefe é a lei, poucos meses depois o tal SUV estava na minha casa, imprensando meu Gol contra a parede da garagem.

Eu entendo meus pais, precisam de um carro novo que seja minimamente valente e seguro perto do que nosso finado Kia Soul era, um veículo tão bom que salvara meu pai de um sequestro à mão armada e do capotamento que isso causou. Tão bom que até deu vida e fôlego suficientes para que o ladrão escapasse do acidente, mas isso é papo para os íntimos. E certamente não queriam um remake do último Volkswagen que tivemos.

9 anos de uso e muitas alegrias. A dupla mais improvável possível, o Celta e o Soul, em sua morada final. (Fonte: Arquivo Pessoal)

Mas depois de tomada a decisão não protestei, e não poderia, diante dos fatos já apresentados. Satisfeito com os resultados em crash-tests, e como todo bom amante de carro, sabia que haviam duas coisas que muito me interessavam nessa compra: o motor TSI, que apesar de ser apenas 1.0 é Turbo, e o tão aclamado câmbio manual VW. Mas esqueça esses valores por enquanto, este é um carro familiar.

Depois de muita insistência e um momento de breve relaxamento familiar, pude enfim guiar a beluga com rodas, e de cara a alta posição de dirigir me lembrava que estava em um SUV. O pedal da embreagem macio e de fácil pressionar era agradável, e do câmbio, nada havia a reclamar. De engates tranquilos e previsíveis, iam de encontro com o que dissera Bob Sharp em uma de suas avaliações: “é um privilégio um carro desse tipo ter câmbio manual”.

Mas o romantismo havia chegado ao fim, e como o fim do breve passeio era iminente, achei por bem provar do que o Turbo de baixa pressão era capaz de fazer, e não me arrependo. Da quarta à terceira, os 3 cilindros vibram em tom arisco, e o empuxo é iminente. 4 mil giros e subindo rápido, a turbina entra e faz seu trabalho com maestria, provando que motores de 1 litro fracos e modorrentos são coisa do passado. Você não sente (muito) que está puxando mais de uma tonelada nas costas, e caso precise, basta jogar a sexta marcha, e seu consumo não será nada chocante.

Mas antes mesmo que pudesse me animar, o test-drive acaba, sobre alegações de “esse moleque tá muito abusado, pode ir saindo daí”. Sem questionar, volto à triste vida de passageiro, e agora empossado deste estático cargo, me pego percebendo outras coisas. Você sente o empuxo do carro mesmo do alto do banco traseiro, a estabilidade em que entra nas curvas, e a segurança estampada na cara de quem só começa a ir devagar sob protestos da dona do carro. E isso me lembra uma história.

O Complexo de Parati

Desde pequeno ouço, das muitas histórias de meu pai, a vez em que teve que ir ao Paraná levar o carro 0km de seu antigo chefe, uma Parati GLS 1.8S 1993.

“Igualzinha a essa, Rodrigo. Andava muito”. Depois dizem que eu sou o emocionado da família. (Fonte: Brunelli Veículos)

Com uma tarefa a cumprir e dois dias para fazê-la, ele e minha mãe rumaram do Rio de Janeiro para lá no carro recém-saído do showroom, e de meu pai só ouvi boas lembranças. Os “puxadões” em terceira marcha, a segunda que sempre entrava cantando, o conforto e suavidade ao rodar, e a tristeza de ter que voltar ao Rio de ônibus. “Se eu pudesse comprava uma p**** dessa”, afirmou algumas vezes. Engraçado que quando cogitei fazer essa mesma coisa, ouvi que era um carro “grande demais”. Mas não nos atenhamos à mim.

Aprofundando o tema, talvez a Parati fosse grande demais mesmo. Um carro de tantos atributos de conforto e desempenho deixou saudades quando saiu de linha em 2012, não deixando nenhum substituto à altura. Há quem chame a SpaceFox de perua, mas eu não apertaria a mão dela, mesmo depois da pandemia passar.

Nesse pequeno flashback eu enxerguei a função do T-Cross como carro familiar, seguro e potente, algo que faria a Parati realmente orgulhosa. Mesmo enorme e completamente indistinguível de qualquer outro SUV normal, é o que ele te faz sentir ao guiar ou mesmo andar, o que realmente importa. Acho que se perguntar aos meus pais se resguardam alguma semelhança com aquela perua, capaz de acharem mesmo.

Porém, como disse ao bom amigo Maurício Campelo, nunca se anda o suficiente em um TSI para se julgar o bastante. Preciso de mais, muito mais.

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