Reencontro

Eu me formei na faculdade tem alguns meses. Comecei um emprego novo, os planos de vida mudaram um pouco, e agora a divido com mais alguém. O Gol não sai mais todos os dias, e para ser cruelmente preciso, praticamente não sai mais de casa.

Sem a faculdade, o pequeno Volkswagen acabou se tornando parte da mobília. Entretanto, ainda insisto em usá-lo, a fim de me conectar com um velho eu, ávido pela adrenalina ao volante, e mais do que isso: estar sozinho em um local em que me sinto seguro.

Hoje foi um daqueles dias em que era preciso sair de casa, e nem mesmo o Monza ou o Up serviriam para a tarefa. Chave no contato, seus 3 segundos de relutância e o CHT acorda para a vida, prestes a enfrentar a noite fria de outono. A gasolina aditivada, comemorando mais de um mês no tanque, logo virara barulho, bairro adentro.

O destino: o mercado. Com todos os campo-grandenses fazendo fila nas ruas, ser ágil para desviar do trânsito era preciso, algo que o Gol sempre soube fazer. O câmbio, agora mais justo, auxiliava na tarefa, enquanto o escape berrava atrás de nós. O enxame de abelhas raivosas era, para o espanto de todos, um Gol velho esticando a segunda marcha.

Se por fora é apenas um carro velho incomodando meio mundo rua acima, por dentro era um convite à velocidade. Pela primeira vez em meses senti de novo o prazer de dirigir, de tomar uma decisão ao volante e o carro responder prontamente, algo que o Monza, por melhor que sejam suas qualidades, não consegue fazer.

Entrar e sair de uma curva, mesmo com a suspensão original, é tarefa fácil para o pequeno VW. O moderno brilho das lâmpadas de LED (o que certamente não me incomoda) reluzia na pintura suja do hatch, e sumia conforme se descia a avenida. Carros maiores andavam mais devagar, e a avenida vazia perguntava: o quão longa é essa segunda marcha?

Seja como for, é quando se para que a ficha cai. Os nervos voltam a si, o sangue esfria e você percebe que está se divertindo, mesmo que no limite de velocidade, e sem fazer mal a ninguém. É a magia do carro velho e pouco potente.

Um tempo atrás prometi escrever sobre como o Gol aparenta envelhecer bem, e para mim parece mesmo. Seja mantendo um bom ritmo de estrada, economia ou comprovadamente ultrapassando o carro alheio, hoje vejo que a idade realmente lhe fez bem. É claro, ainda não fiz muitas coisas com e tampouco viajei o tanto que queria, mas posso garantir: ele está pronto para o que der e vier.

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