Seu Wilson e a Prêmio CS 88'
Seu Wilson e a Prêmio CS 88'

Seu Wilson e a Prêmio CS 88'
Um adorável casal e um adorável Fiat
Esta é a primeira de uma série de crônica sobre carros especiais que passaram pela minha vida até hoje, e que apesar de não ter tido a oportunidade de guiar ou mesmo andar, ficaram marcados na memória para sempre.
A história de hoje é a do Seu Wilson e sua esposa, Dona Dilza. Os conheci em 2000, ainda muito pirralho, numa das muitas idas a um clube em Maricá, na região dos lagos do Rio de Janeiro. Dessa época em específico eu não lembro muita coisa, além da já muito cansada figura do casal, amigos de meus pais e sempre sorridentes aos nos visitarem em nosso chalé, à bordo de um Fiat Prêmio CS 1988, Azul Florença.
Então moradores da Zona Norte, sempre passavam os feriados naquele clube, e nas muitas voltas em minha inseparável bicicleta, sempre esbarrava com aquele velho sedan, e estranhava suas formas muito quadradas, imitando uma caixa de sapato. Por muitas vezes me peguei pensando: “como é que eles conseguem vir para cá nessa coisa velha?” Criança que era, não podia imaginar como era o tamanho do zelo do Seu Wilson com aquele carro, seu veículo de uso diário desde que fora tirado zero, em 88.

Os anos foram passando, eu fui crescendo, o capim ao redor do clube foi tomando cada vez mais o espaço dos chalés, mas duas coisas eram certas: no próximo feriado estaríamos lá e Seu Wilson e Dona Dilza também, e sua inseparável Prêmio. Já com o mínimo entendimento sobre carros, achava curioso ver aquele emblema “1500” na lateral, achando se tratar de um erro do dono ou da Fiat, pois “só Fuscas e Kombis tem 1500 escrito no carro”. Tolo que era, não sabia se tratar do famigerado motor Fiasa, maior litragem disponível ao Prêmio até então, que também vinha com o 1300 na versão S, básica.
O banco traseiro de tecido clarinho, em perfeito estado, parecia nunca ter visto o traseiro alheio na vida. Os dianteiros usavam várias capas surradas, mas imagino que fossem parecidos e com leve desgaste. O porta malas gigantesco era o suficiente para levar tudo que aquele simpático casal de idosos precisasse na viagem. Malas, cadeiras, comida, chapéus de praia: tudo cabia naquele mundaréu de espaço, servindo a eles sempre sem reclamar.
Lembro nitidamente de quando entrei naquele carro pela primeira vez. Sempre muito curioso, perguntei se podia e logo vinha Seu Wilson com as chaves na mão, sempre muito solícito: “Pode entrar meu filho, fique a vontade”. Eu não podia recusar tamanha oportunidade e assim o fiz, aproveitando que naquela tarde ele e sua esposa faziam seu programa favorito de férias: sentar e assistir qualquer coisa na televisão, a fim de aplacar o tédio da idade.
A chave, ovalada e cheia de pontinhos táteis típica dos Fiats antigos era só a primeira das muitas estranhezas daquele carro. O volante sem um botão de buzina, cuja localização ficava na chave de seta, era o cúmulo do absurdo, e aqueles botões e alavancas “saltadas” para fora do painel satélite faziam a Prêmio parecer a cabine de um avião, somadas ao intrigante desenho do carro no painel, extremamente lotado de informações, completo. Lembro que até a régua metálica do painel escrito “Prêmio” era nova, sem riscos causados pelo cinzeiro.

Depois desse dia em específico, nunca mais tive contato tão próximo com aquela Prêmio de novo. Dois anos depois Dona Dilza faleceu, e por alguns anos não vimos mais Seu Wilson nos feriados no clube. Casou-se novamente e continuava fiel ao velho sedan azul, mas que em virtude da idade avançada do dono, já começava a sofrer com os descuidos dele. Quando reapareceu pela última vez, já havia perdido as calotas, a pintura estava bem fosca e até teve um problema mecânico durante a estadia, que até meu pai se ofereceu para ajudar, mas sinceramente não me recordo do que era e imagino que tampouco meu pai se lembre.
No ano seguinte, ele perdeu o controle da Prêmio indo para Maricá e deu perda total no velho sedan, depois de quase 30 anos de convivência. Pelo que me recordo de ter ouvido à boca miúda, havia comprado outra, mas àquela altura Seu Wilson não tinha nem sequer mais condições de dirigir, e pouco tempo depois veio a falecer.
Sempre me lembro daquele alegre casal de velhinhos como avós de temporada, sempre sorridentes e frágeis à sua maneira, e como donos da primeira referência de carro “de velho” na minha vida, não no sentido depreciativo, mas de preservado nos mínimos detalhes, e devidamente usado diariamente, do jeito que deve ser.

A minha simpatia por carros da família Uno frente alta começou naquela Prêmio, e eu nunca havia me dado conta disso até escrever esse texto. Que loucura a vida, não?



