Sintonia Fina
Sintonia Fina

Sintonia Fina
4:30 da manhã de Domingo. Num horário em que a maioria, apesar dos tempos pandêmicos, está voltando pra casa com os sentimentos em desalinho e fedendo à cerveja ruim, uma caixinha azul-claro vai cortando a noite com tudo, na mais remota tranquilidade.
As milhas do asfalto iam sumindo, a um passo apressado e seguro, afim de não atrasar ninguém. Na faixa da esquerda parecia inabalável, e de fato era. Quando menos se espera ela já estava à espera do comboio, no local combinado, afim de chegar onde se realmente queria, ansiosa. Uma espera de poucos 5 minutos e o grupo que lhe acompanharia começa a aparecer. De todos os tipos e cores, os aircooled iam se ajuntando.
Todos juntos, o comboio parte. Na liderança, um Fusca verde fosco, com pátina e relativo “drop” na suspensão, que de tamanha vitalidade e disposição, ninguém julgava se tratar de um mero 1200. Na trupe ainda haviam um Gol BX (o famigerado “batedeira”), alguns Fuscas, uma Variant chamada “Vitória” e duas Kombis, dais quais uma era um legítimo atraso. Mas isso é assunto para depois.

Logo atrás do empolgado 1200 ia a Brasília, sempre muito responsiva, que se mais empolgada poderia facilmente liderar o bando, mas que por bem agia comportadamente. Quando menos se esperava, surgiu a primeira parada do dia, e com ela uma verdade inconveniente sobre comboios: os perdidos e quebrados.
Uma das Kombis, apesar de ser a mais nova do grupo, vivia quebrando, por conta de algum problema desconhecido e de seu dono, que dirigia como se não houvesse amanhã. Refém das próprias escolhas, passou mais tempo no acostamento do que em viagem.
Novamente, os quilômetros iam passando, e ninguém parecia preocupado com o destino, mas sim com o passeio. Entre muitas idas e vindas no retrovisor, o grupo ora se aproximava, ora sumia, sempre a espera dos agarrados no pedágio ou por qualquer outro motivo.
Num piscar de olhos, entre conversas e o som intermitente do 1600, que a essa altura já não mais competia conosco pelo posto de quem falava mais alto, chegamos ao destino. Porém, o calor que fervia até mesmo a mais devota das almas já anunciava: é hora de voltar à estrada.

Com um novo destino em mente e com a vontade de acertar as contas com o estômago, afim de vingá-lo de um pão de queijo radioativo, a Brasília apontou na estrada novamente. Novamente os quilômetros iam ficando pra trás, e com o sol se pondo, ou talvez levemente delirantes da exposição ao mesmo, vimos coisas que até mesmo os céticos duvidariam.
Desde um Gol 1.0 CHT cortando pela esquerda, cuspindo óleo e tuchos como se sua vida dependesse daquela ultrapassagem, a até mesmo alguns sedans médios incrédulos com a Brasília na faixa da esquerda, sempre que possível, nada parecia ser mais surpreendente. Até que algo foi.

Um ruído grave, vindo do motor em alta rotação, forçou uma parada para averiguação, gasolina e relativa preocupação. Porém, o susto, ainda que sem solução, provou-se pouca coisa. Apostas feitas em o quê poderia ser o barulho, estrada novamente.
Cansados, famintos e confusos, ainda assim, a Brasília mostrava a que veio. Mesmo presos no trânsito com um carro cujo projeto data de meados dos anos 70, a segurança e conforto andavam do jeito que podiam, sem muito incômodo. Se isso é o já notado costume à máquina, só andando pra saber.
A sintonia fina entre carro e condutor é realmente espantosa. Conhecer a fundo o próprio automóvel não é tarefa fácil, mas são momentos assim que justificam as tentativas. Ler sobre, sair e colocar o carro à prova são tarefas essenciais para tal, ou você ficará preso(a) em um loop, à mercê de comentários alheios a algo que você conhece e preza.
A ideia de cumprir longas distâncias em um aircooled já não parece mais tão absurda, como era no início do ano. Talvez eu não tenha desistido do 1500 ainda, mas é apenas talvez mesmo.



