Toda polia será castigada
Toda polia será castigada

Toda polia será castigada
Quando a “extensão mecânica de você" dói
Quando se realmente gosta de carro, a certeza que todo petrolhead/gearhead tem é que seu veículo o completa. Seja moto, carro ou mesmo aquele sonho de consumo, todos sabemos que aquilo com rodas e motor é a “extensão mecânica do seu corpo”, logo, uma parte de você mesmo.
Então, é de se notar que qualquer coisa que aconteça com o seu automóvel reflita diretamente em você, para o bem e para o mal, afinal de contas, o subtítulo deste texto é bem sugestivo. Vamos aos fatos, e tentar entender o porquê disso afetar tanto a mim, você e quem quer que seja. Mas vamos logo, antes que você se perca pelo Twitter/Facebook.
Ok, todo mundo aqui já sabe o óbvio: carro custa dinheiro, então qualquer problema é despesa, gasto, furo no bolso, um rombo nas contas públicas do Sr./Sra. Mas o que ninguém consegue te explicar é como um troço de quase uma tonelada, revestido de metal e fios velhos pode doer tanto na sua alma? A reposta é bem simples até: carros são representações de nossas projeções em nós mesmos, ou em termos mais diretos, nossa alma.
Ao realizar o desejo incrivelmente pulsante de comprar seu primeiro carro, seja ele os dos seus sonhos, ou como no meu caso, apenas TER um em seu nome e posse, você já superou os obstáculos que a vida te impôs até aqui: o transporte público, o Detran e a ansiedade incontrolável entre a escolha e a compra. Então agora você tem duas obrigações: curtir o momento e torcer que ele seja o mais parecido possível com o que você sonhou nos últimos anos. Ênfase no “torcer”.

Não se preocupe, vai quebrar
Se você também é adepto do baixo orçamento, ou simplesmente antigomobilista, é muito provável que vá começar com um carro velho. Então é certo que alguma coisa irá quebrar em algum dado momento. Polias, correias, elétrica, funilaria, pintura, sua paciência… tudo tem prazo de validade, que você aceita por livre e espontânea pressão, a partir do momento em que assina o CRV. (Esta crônica se solidariza com os que ainda não tem carro documentado (ou sequer habilitação).
Mas deixemos isso de lado um pouco. Você já tem o carro e sabe que uma hora ele vai quebrar, mas obviamente não se preocupa muito com isso, senão jamais sairia de casa. O bicho pega mesmo é quando algo REALMENTE acontece. O perrengue ao vivo, aqui e agora.
Para isso, usarei de um exemplo relativamente fresco na memória, e também pela simples comodidade do fato, pois de desalentos do meu próprio carro, este site já está cheio.
“Aí já são outros 1600”
Na foto abaixo, uma das (muitas) correias do alternador que viraram história, na Brasília do colega Ênio Junior, que muito dificulta a vida do autor por não ter conta neste site, me impedindo de marcá-lo no texto, o impedindo de ler a desgraça em primeira mão. Em um contexto de um rolé pelo Rio de Janeiro, isso não seria um grande problema, afinal se está jogando em casa, praticamente. Lojas, oficinas e guinchos estão à um toque de distância.

O que a foto esconde é que esse ocorrido aconteceu em outro Estado, a milhas e milhas de casa, sem muita opção de qualquer uma das coisas citadas acima, fartas quando se está à alguns bairros da sua própria garagem. E como em qualquer incêndio há quem torça mais pelo fogo do que pelas vítimas, toda a pressão de ser literalmente o meio de uma viagem de 3 Estados, e este sendo o único carro para completar a tarefa, fizeram os ânimos irem ao chão.
No banco do motorista, o silêncio era sepulcral. E dentro do carro, o pensamento era apenas um só: chegar ao destino com os passageiros em relativa segurança, sem maiores sustos. Tensão era tudo o que havia dentro do carro naquele momento, menos onde importava, na correia. De todos os sustos que se sucederam, que não cabem comentar, e que pertence somente aos que viveram, fica uma coisa: o defeito do carro mortifica quem o conduz, e também quem é conduzido.
Eu sou você ontem
O que você leu é o relato deste que vos fala como passageiro. A coisa muda de figura quando é o seu que está na reta. Sei disso porque quando meu carro parou numa BR por causa de um relê de bomba de combustível, à caminho de uma prova na faculdade, o ódio e a frustração me subiram mais rápido do que tempo que um Ford 302 leva para ferver num dia de sol.

E enquanto se está sozinho, lhe é permitido surtar dentro do ambiente selado e defeituoso do seu carro à espera do guincho. Isso é impensável quando se está na companhia de terceiros, que dependem de você para voltar pra casa. O que te resta é achar a solução (sabe-se lá Deus onde) e rumar para a segurança, antes que comece a chover (como se não pudesse ser mais clichê e realista, uma triste coincidência entre as histórias).
Falando em coincidências, veja onde as duas histórias se encontram. Você, na posição de gostar de carro, fica diretamente abalado com a baixa que ele dá, seja com você ao volante ou não. É mais uma daquelas oportunidades de você colar uma imagem pixelada do Jeremy Clarkson dizendo que “carros tem alma, e ela mexe com você”. E é isso mesmo, não há como negar.
Não direi a você que não deva se abalar com o que quer que aconteça ao seu carro, pois é inteiramente impossível. É um organismo vivo, e sujeito a falhas, à todo momento. E como o que move esse grande interesse em cuidar e preservar essa parte sua movida à combustível é simplesmente afeição, carinho, semelhança ou mesmo amor, só te resta sentir tudo que esse monte de lata barulhenta te traz.
Já que somos tão intimamente ligados a isso, só nos resta mergulhar de cabeça na situação, pois faz parte do pacote. Sim, seu carro VAI quebrar, mas isso não é motivo para não tirá-lo de casa e desbravar o Mundo, se assim você puder (na verdade até se você não puder, mas acho que você sabe onde colocar seu bom $enso). Carro é sua alma com rodas, então ponha algumas milhas nela também.
E isso é tudo que temos tempo por hoje. Nos vemos semana que vem.



